sábado, 16 de maio de 2015

Os encaralhadores


 
 

























A arte do encaralhanço é um desporto nacional! É levada a cabo por encaralhadores profissionais. Estes profissionais do encaralhanço estão presentes em todo lado. Uns são nossos vizinhos, outros conhecidos, colegas de trabalho ou até nossos chefes. O seu objectivo é basicamente impedir que a coisa avance. São aqueles tipos ou tipas que nem fodem nem saem de cima! Nem lá vão nem deixam ir! Há-os em todo lado, sobretudo nas repartições públicas. Mas existe uma classe onde eles se encontram em abundância – na classe das chefias! São os casos mais graves!
 

A maioria dos portugueses alimenta um sonho secreto – o de um dia chegar a chefe de qualquer coisa! Chefes há-os de todos os géneros, uns são chefes de outros chefes, outros apenas de alguns trabalhadores, outros apenas chefes de si próprios, outros de merda nenhuma. Estes últimos são os que menos prejuízos dão à nação. Mas dizia eu, se um dia o tal gajo que sonha ser chefe conseguir concretizar o seu sonho, no dia seguinte, põe em prática a arte do encaralhanço.

 

Primeiro começa por dizer mal do chefe anterior – um incompetente, um encostado, um burgesso. No segundo dia de trabalho toma a sua primeira medida! Mudar a disposição do gabinete. Dispõe todos os móveis ao contrário do seu antecessor. Mesmo que não existam fichas eléctricas adaptadas à nova disposição, ele inventa e transforma aquilo numa central eléctrica, com extensões e cabos eléctricos pelo chão ao ponto de um gajo, se não tiver atenção, cair e partir os cornos contra uma esquina qualquer. Finalmente coloca umas fotos de família para marcar o território, como fazem os cães. Só não alçam a perna e mijam para as pernas dos móveis por sorte. Aquele passa a ser o seu território.

 

Depois dessa revolução, altamente estratégica, que ocupa todos os funcionários durante uma semana, o gajo passa ao passo seguinte – reformular procedimentos. Então, independentemente da eficácia dos anteriores, ele adopta um exaustivo pacote de novos procedimentos para encaralhar. Mesmo que se revelem disfuncionais, ele mantém-nos teimosamente só para ficar claro que quem manda naquela espelunca é ele e mais ninguém.

 

O passo seguinte, consiste em rejeitar todas as ideias (boas e más) que lhe proponham, não vão elas tirar o brilho à sua extraordinária liderança. No fundo o que o encaralhador quer é deixar a sua marca, sentir-se como o galo no poleiro.

 

Se um gajo propõe uma ideia, ele não aceita à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Tem que reflectir. Ponderar! Pesar os prós e os contras. Pede uns dias. Depois arruma a proposta na gaveta e com um bocado de sorte nunca mais vê a luz do dia. É arquivada automaticamente. Nunca mais se ouve falar de tal merda!

 

Apesar de não acontecer nada! O gajo marca reuniões regulares! Aproveita-as para esfregar o seu sôfrego ego. Fala de umas viagens que fez com a mulher em mil novecentos e troca o passo às Caraíbas, a Palma de Maiorca, à romaria do Santoinho e à puta que o pariu. Fala de uns projectos em que esteve envolvido, nos quais teve papel relevante, senão fundamental, com resultados verdadeiramente estratosféricos.

 

Enquanto isso, um gajo vai gatafunhando uns bonecos nas folhas pagas pela repartição. Acrescenta umas linhas, mais umas linhas, até que constrói uma banda desenhada! Depois faz a lista do supermercado, idealiza o jantar, o vinho para o acompanhar, projecta um vinho da próxima colheita e quando de repente acorda, volta à realidade e dá com o gajo todo babado, ainda a falar dos seus feitos heróicos!

 

Entretanto fala apaixonadamente dos projectos futuros, enumerando uma lista exaustiva de novas ideias de que vais ouvir falar pela primeira e ultima vez.

 

O encaralhador não toma decisões. Tem medo de ferir susceptibilidades. É redundante, teórico, abstracto. A melhor forma de se manter no cargo é não fazer ondas. Faz uma gestão tranquila. Nunca toma partido. Mantém-se ali naquela zona de conforto, na terra de ninguém. Na ambivalência!

 

Um dia, porque se portou bem e até fez uns favorezitos a um outro encaralhador, será promovido ao posto de encaralhador-mor! Até que um dia chegarão encaralhadores de outras cores e vão todos para o caralho!

 

Ai a coisa recomeça. A primeira acção do novo encaralhador é dizer mal do seu antecessor, depois reconfigura o seu gabinete.

1 comentário:

Manuela Fraga disse...

Amigo, como eu partilho das ideias que a sugestiva palavra "encaralhar" te inspirou!