sábado, 20 de fevereiro de 2010

Fumar enquanto se reza

Passo a contar-vos uma estória passada num dos seminários que por ai existem:
“Dois seminaristas foram pedir ao padre superior autorização para fumarem enquanto rezavam.
O primeiro foi directo ao assunto e perguntou se poderia fumar enquanto rezava. O padre, chocado, negou prontamente e exigiu dele uma série de penitências.
O segundo, senhor de outros argumentos retóricos, disse ao padre que enquanto fumava rezava. Perguntou se podia. Recebeu uma resposta positiva, com a recomendação de que rezasse também para interromper o vício de fumar.”

Esta pequena e brilhante estória foi recentemente relembrada durante um debate entre o actual e o anterior bastonário da ordem dos advogados.
Os factos podem ter diferentes perpectivas dependendo do angulo em que são observados. Nós sabemos isso.
Não deixa de ser ironico que esta estória seja trazida à actualidade justamente por um actor do sistema judicial português. É que se esta estória tem uma moral, ela encaixa que nem uma luva à flamigerada Justiça portuguesa.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os mesmos predadores, as mesmas palavras, o mesmo céu.


Saindo do IP8 em Sines, toma-se a direcção do Algarve para pouco depois, saindo à direita, apanhar a estrada que nos leva por S. Torpes até Porto Covo. A primeira vez que percorri estes caminhos foi mais ou menos há 15 anos. Lembro-me de parar um pouco antes de chegar a Porto Covo e ficar no cimo de uma falésia, em silêncio, a contemplar aquele mar sem fim recortado por falésias luminosas. Fiquei naquele momento preso emocionalmente àquele mar, àquelas praias, àquelas gentes, àquela terra.
A estrada que liga Sines a Porto Covo é a mesma, com os mesmos buracos, os mesmos remendos e o mesmo asfalto de há 15 anos. Às praias de água cristalina, areia branca e limpa, diga-se, continuam a faltar infra-estruturas como chuveiros ou simples lava-pés. Era assim há 15 anos atrás, é assim hoje. Hoje, tal como há 15 anos, não há um parque devidamente equipado para apoio a auto caravanas. Tudo está igual, à excepção da construção civil, desordenada e sem planeamento aparente.
À medida que vou percorrendo aquela estrada até Porto Covo deparo-me com outdoors colocados em pontos estratégicos. Cartazes eleitorais onde se inscrevem frases mais ou menos vazias no rodapé de fotografias dos candidatos à Câmara de Sines, na sua maioria pouco fotogénicos e mal parecidos, onde se promete finalmente progresso e a modernidade para o Concelho.
Penso, sem falar, que raio andou esta gente a fazer estes anos todos?
Mais à frente já a meio caminho entre S. Torpes e Porto Covo, emerge da planície um cartaz enorme onde se pode ler “Os mesmos predadores, as mesmas palavras, o mesmo céu”. Irónico! Não?

Desconfia-se…


Somos um país de desconfiados. O Presidente da Republica desconfia que o governo mandou vigiar e escutar os seus assessores. O Presidente desconfia portanto do Primeiro-ministro. Quanto ao Primeiro-ministro, já se sabe há muito que desconfia do Presidente.
Desconfia-se que o Primeiro-ministro possa estar envolvido no caso Freeport, que assinou projectos que não fez e desconfia-se ainda de mais umas coisas. Desconfia-se que o homem não é sequer engenheiro e desconfia-se também que a Universidade Independente era a uma espécie de “novas oportunidades” para muitos membros do PS.
Desconfia-se, tal como Medina Carreira, que a maioria dos actuais políticos anda na política para “governar a vidinha”. Desconfia-se que Isaltino Morais meteu um milhões na Suíça. Desconfia-se também que o dinheiro era de um sobrinho. Desconfia-se que Fátima Felgueiras tinha um “Saco Azul”. Desconfia-se que a MOTA ENGIL, é a construtora oficial do Governo. Desconfia-se que existem pressões e promiscuidades de bancos e construtoras para que o TGV e o novo Aeroporto avancem, doa a quem doer. Desconfia-se que o Primeiro-ministro tentou seduzir Joana Amaral Dias a integrar as listas do PS para as legislativas, prometendo-lhe a presidência do Instituto da Droga e da Toxicodependência. Desconfia-se que estes lugares de nomeação política são abertamente traficados em troca de favores e de jeitinhos políticos. Desconfia-se que a nova lei do financiamento dos partidos políticos já rende milhões. Desconfia-se que só o PS vai gastar cerca de 10 milhões nas próximas eleições legislativas. Desconfia-se… desconfianças.
Com tanta desconfiança, começo a desconfiar que não vou votar nas próximas eleições!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O menino Isaltino



O que o processo Isaltino Morais nos mostrou foi que em Portugal existe uma justiça para ricos e outra para pobres. O que o menino Isaltino nos mostrou foi que as condenações em primeira instancia são só para os pobres. O que o caso Isaltino nos mostrou foi que em Portugal os bandidos com dinheiro, ainda que roubado ou ganho de forma desonesta, são intocáveis… impunes. Só esta semana vimos duas dessas figuras bizarras a cantar de galo à porta dos respectivos tribunais. Nos EUA, o caso Madoff levou nove meses a ser resolvido... 150 anos de prisão... sem apelo. Em Portugal resta-nos continuar a ser governados por esta corja e ilustres intocáveis.

domingo, 19 de julho de 2009

A Justiça anda cega


O termo justiça, do latim iustitia, diz respeito à igualdade de todos os cidadãos. É o princípio básico de um acordo que objectiva manter a ordem social através da preservação dos direitos em sua forma legal (constitucionalidade das leis) ou na sua aplicação a casos específicos (litígio). Sua ordem máxima, representada em Roma por uma estátua, com olhos vendados, visa seus valores máximos onde "todos são iguais perante a lei" e "todos têm iguais garantias legais", ou ainda, "todos têm iguais direitos". A justiça deve buscar a igualdade entre os cidadãos.
O Poder Judiciário no Estado moderno tem a tarefa da aplicação das leis promulgadas pelo Poder Legislativo. É boa doutrina democrática manter independentes as decisões legislativas das decisões judiciais, e vice-versa, como uma das formas de evitar o despotismo. Segundo Aristóteles, o termo justiça denota, ao mesmo tempo, legalidade e igualdade. Assim, justo é tanto aquele que cumpre a lei (justiça em sentido universal) quanto aquele que realiza a igualdade (justiça em sentido estrito). Posta esta breve introdução, podemos concluir que a justiça teve origem na necessidade de combater as desigualdades, por outras palavras evitar que os mais fortes se sobreponham indiscriminadamente aos mais fracos!

Agora pensem nos casos da justiça Portuguesa. Já pensaram? Esqueçam! Não percam tempo.

Ilusão de ser


A queda é abrupta, quase me cola os órgãos. De repente, tudo perde a glória, tudo cheira a bafio. Tudo é velho. De repente dou de caras com a velha senhora, companheira de sempre, confidente inseparável. Sei onde está. Sabe onde estou. Coabitamos… apenas dormita um sono leve enquanto aguarda para relembrar que… afinal tudo é fantasia…tudo é delírio…tudo é nada. De repente é preciso mudar… mudar tudo. De repente é preciso preservar… preservar o pouco. De repente o tempo corre, o tempo passa. De repente será tarde para mudar…tarde para viver!
De manhã o sol nasce, se eleva no horizonte iluminando o meu jardim. Seco… árido. De repente imergem vidas das cinzas. Abandonam-se as mortalhas. Sacodem-se poeiras, limpam-se as lágrimas mudas. E tudo volta ao inicio, ao nada, à ilusão de ser.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O Conluio da Cegueira


Sou relativamente distraído e isolado e por isso, por vezes, distante face ao mundo. Para agravar, tenho uma forma peculiar de ver o mundo, sou daltónico e digamos que faço uma deficiente leitura do mundo. Amiúde resvalo para visões um pouco catastróficas acerca do que me rodeia - um pouco paranóicas quiçá. Admito! Talvez a psicanálise explique… o bom objecto e o mau objecto, o bom e o mau seio… talvez… Não interessa! Para além de eu ver o mundo com as minhas próprias cores… não sou propriamente doce na relação com o mundo. Se fosse um vinho diria que tinha um pouco de acidez volátil a mais. Mas estou mais ou menos precavido para este meu desvario, conheço mais ou menos as minhas limitações, os meus enviusamentos, as minhas inquinações…mais ou menos! Por isso sabe Deus o esforço que faço para parecer uma pessoa normal!
Há dias descobri que existe uma corrente de estudo que associa a data de nascimento a uma determinada flor. Não levo estas coisas muito a sério, mas espreitei. No meu caso a flor associada é a Mandrágora. Gostei do nome. Na verdade nunca tal tinha ouvido, mas seja ela a flor que for, gostei! Sugere-me uma planta carnívora! Logo agora que começo a ter tendências vegetarianas…só vegetarianas… Ao que parece, e passo a citar, “esta flor tem uma forma que lembra a silhueta de um corpo humano. É fonte de uma substância capaz de induzir a transes hipnóticos, ou estados alterados de consciência, muito úteis à prática de magia. As pessoas que nascem sob o signo de Mandrágora são espiritualmente elevadas e estão sempre em busca do sentido mais profundo da vida e da existência. Não gostam da rotina, do senso comum, da mediocridade. Têm uma natureza intensa e apaixonada, ainda que aparentem uma certa frieza e façam questão de impor algum distanciamento às pessoas em geral. É preciso conhecê-las bem para saber lhes dar o devido valor”.
Não posso deixar de sublinhar que me revejo nesta questão dos transes hipnóticos, ou estados alterados da consciência e fundamentalmente na questão da frieza e distanciamento face aos outros.
Na verdade para experimentarmos estados alterados de consciência e não enxergarmos a realidade, vendo apenas aquilo que nos interessa, não é rigorosamente necessária a utilização de drogas ou sequer a existência de perturbação mental. Basta a vontade de não ver. De facto é possível passar uma vida a ver só o que se quer ver, deixando passar pelo crivo critico tudo o que não nos convém.
De alguma forma somos todos ligeiramente perturbados e isso perturba necessariamente a nossa visão do mundo.
Só esta minha perturbação pode explicar a deconfiança que sinto relativamente a uma notícia que li recentemente.
A noticia refere-se à lei do financiamento dos partidos políticos em que o limite para entregas em dinheiro vivo passou de 22.500€ para 1.250.000€… isso um milhão e duzentos e cinquenta mil euros… em dinheiro vivo. Curioso numa época em que tudo se paga com dinheiro de plástico, os partidos preferem receber em cash! O mais curioso é que a lei passou com a aprovação de todas as bancadas parlamentares, apenas com o voto contra do deputado socialista, António José Seguro. Estarei eu a ficar doido ou ainda há menos de uma semana estavam todos os senhores deputados muito preocupados com a corrupção, o caso freeport e mais não sei o quê.
Existirá alguma pessoa ou empresa que dê dinheiro a um partido sem esperar nenhuma contrapartida? Ou favor político?
Às vezes, atrevo-me a pensar, pasme-se, que a nossa democracia está seriamente doente, que a nossa actual classe politica é medíocre, e que muitos dos nossos políticos são ligeiramente…CORRUPTOS? Será? Puro devaneio!
A coisa não pode estar assim tão mal! Só uma mente perversa como a minha o poderia pensar!
De facto descobrir que tudo isto pode ser verdade é muito doloroso, muito ameaçador. Por isso de vez em quando é mais conveniente… simplesmente, não ver! Estarei só?