terça-feira, 12 de setembro de 2017

Ai, ai... fardas!!


As fardas intrigam-me! Vá um gajo a uma boa casa de alterne ou passe em frente a um qualquer quartel e é ver a efervescência que as ditas causam! Aquilo é um contorcer de pernas sem fim, parecem ter o efeito de um Alka-Seltzer num copo de água. É uma vertigem, uma obsessão!

Nas casas de strip-tease, eles fardados de policias, oficiais da marinha, comandantes de avião ou de bombeiros,  em cima daquela armadura que parece mesmo pele verdadeira, com abdominais perfeitos que quase enganam as mais distraídas. Toda a gente sabe que aquilo é PVC manipulado, encaixado em cima da pele flácida. Elas vestidas de enfermeiras, hospedeiras de bordo ou professorinhas de uniforme colegial, cabelo apanhado e óculos. É um cenário untuoso, fisgas canhoto, que arrepio!

Fardas de comissários de bordo também são escolhas frequentes e costumam agitar o universo feminino. Deve ser por andaram nas nuvens, porque no fundo não são mais que  empregados de mesa que andam pelos ares! Mas elas adoram andar pelos ares! Fardas e nuvens é a conjunção pecaminosa, o disparate completo! Mas há profissões que são completamente anti-tusa. Já viram algum stripper vestido de jornalista, padeiro, coveiro, contabilista ou motorista de autocarro? Não viram pois não? Bem, só se for o fulano do “pica do 7”!

Nos tempos que correm se um gajo anda à civil não tem hipóteses. O único uniforme civil capaz de fazer tocar a campainha no cérebro delas é o smoking, mas elas estão formatadas para tipos como o David Beckam ou o George Clooney e com azar ainda somos confundidos com um empregado de mesa de um bar,  e  corremos o risco de nos pedirem uns croquetes e mais uma garrafa de branco bem fresco!

Mas voltando ao fetiche, que raio pode explicar tamanha lambarice por fardas, sobretudo nas mulheres?  Será porque as fardas vestiram os grandes heróis, reais ou ficcionados,  homens bravos e corajosos, figuras de comando, símbolos de autoridade, poder e proteção? Será pela representação da lei, da sentença e do castigo?  Ai o castigo, esse tau-tau maroto! Será pelos apetrechos? Algemas, chicote, bastão ou espada? Será que apesar dos movimentos de liberação feminina, apesar da pílula, apesar da profissionalização etc., elas ainda sonham com um ombro musculado, forte e protector? Bem, é sabido que desde o tempo das cavernas, as fêmeas procuram os machos mais fortes para caçar mamutes e acasalar. A atração é também atávica, portanto.
Sendo assim, e porque a farda masculina é um fetiche e um homem fardado, condecorado com quilos de medalhas e armado com pistola ou espada, deixa de ser humano para se tornar um ícone de garbo, um símbolo de altivez, hombridade, inteligência, força e poder, tomei a única decisão inteligente neste contexto de luta pela sobrevivemcia – passarei doravante a envergar uma imponente e aparatosa farda pelo menos dois dias por semana!

Numa primeira fase, a que chamaria experimental, tipo projeto-piloto, apenas usarei farda aos fins-de-semana à noite! Sairei então todas as sextas à noite com belíssima e faustosa farda da marinha portuguesa, de um branco puro, ostentando a patente de Capitão-de-mar-e-guerra, pendurando sobre o nobre pano três quilos de medalhas adquiridas previamente nesse ícone da modernidade que são as feiras das velharias!

Alternadamente, aos sábados, vestirei sumptuosa farda de gala com o posto de brigadeiro-general do exército português de fazer salivar a mais fria das mulheres ao cimo da terra. Um gajo não se pode deixar ficar para trás!

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Je suis banqueiro


Acabo de comemorar cinquenta anos de vida. Ainda que inicialmente hesitante, não posso, em nome da minha honestidade intelectual e após apurada reflexão, deixar de fazer um balanço deste meu primeiro meio seculo de vida. Começo hoje pela análise do capítulo financeiro, deixando para textos posteriores outras análises, como sejam a análise exaustiva da minha participação cívica e dos meus papeis sociais, da análise psicanalítica do meu “eu”, do meu “eu idealizado” e por fim, a esperada análise da minha extraordinária e tórrida vida amorosa e sexual.
Mas comecemos então pela massa. Vejo-me aos cinquenta anos senhor de robusto património! Fruto de muito trabalho, é certo! A primeira pedra e a chave deste sólido edifício financeiro foi a feliz decisão de participar há uns anos no capital financeiro do BPP – Banco Português de Negócios, gerido por um tal Rendeiro, amigo do Cavaco.
Depois já se sabe como funciona o mundo dos negócios, quando descobrem que um gajo tem massa nunca mais nos largam, aquilo são só sorrisos, abraços e palmadinhas nas costas. Ele são convites para almoços e jantares em casa dos Salgados, férias na Comporta com as tias, chás em casa do Oliveira e Costa, convites para casamentos dos filhos, baptizados dos netos, entronização na maçonaria, convites para umas charutadas, convites para participação em fundos de investimentos de alto rendimento e acções em bolsa, convites para uns jogos de golfe, convites para isto, convites para aquilo e até convites para a puta que os pariu. Uma chatice! Tinha um gajo uma vida simples e pacata e de repente lá se foi a tranquilidade.
A verdade é que com tanta mordomia lá me convenceram a nova incursão no mundo da banca – entrei no capital social do BPN dos amigos do Cavaco, hesitei inicialmente, mas aquela malta é bestial, todos uns fanfarrões, tudo gente de bem e sempre ouvi dizer - junta-te aos bons e será melhor que eles.
Resultado? Mais meia dúzia de jantares, conversa puxa conversa e recentemente lá entrei também no capital do BES. É assim, não há duas sem três!
Mas a vida é mesmo assim - uma vez banqueiro, banqueiro para toda a vida e isto do dinheiro é bicho danado que não pára de morder e então lá vai disto – acabo de entrar também no capital social do Banif, dos amigos do cavaco.
Agora, rico como um porco, tudo isto me parece ainda mentira. Faz-me lembrar a subida a pulso da Isabel dos Santos ou dos meus colegas Duarte Lima e Dias Loureiro, também amigos do professor. Se o cavaco Silva fosse vivo haveria de ficar contente pela ascensão meteórica dos seus queridos amigos e quem sabe de mim também!
Mas esta merda de ser rico não pensem que é um mar de rosas e só deus sabe o que tenho passado. É que para além de um gajo ter de andar sempre com o taco na mão de buraco em buraco, ainda tem que aprender a falar com os lábios repuxados como as tias. Uma massada!
Ora, num país de feroz combate ao enriquecimento ilícito e à corrupção como o nosso, um triste banqueiro como eu nem disfruta da fortuna com tranquilidade e tem de tomar medidas de ocultação de riqueza.
Desta forma, para não dar nas vistas decidi levar diariamente  a marmita para o trabalho como o professor Marcelo, com os  restos de comida do dia anterior, que isto de comer em restaurantes todos os dias dá nas vistas como o caraças e estão sempre a importunar um gajo com pedidos, conselhos acerca da banca ou dicas sobre investimentos aqui e ali.
Assim um gajo come mais descansado, traz umas sobras de cozido com uns enchidos, uns restos de favas com chouriço ou massa com fiambre, aquece no microondas e come tranquilo na cantina do serviço na companhia de outros colegas capitalistas.
Nas férias alguma discrição também não é demais, nada de viagens de avião para paraísos exóticos ou hotéis de luxo. Nada disso que o seguro morreu de velho e umas idas às praias fluviais da região sempre dão menos nas vistas.
As minhas viaturas, sabiamente, são as mesmas da década de noventa, tudo carros clássicos e bem estimados que ainda fazem mais quinhentos mil quilómetros, atados com uns arames aqui e ali.
Dinheiro quase não uso, ando sempre de carteira vazia não vá um gajo ser assaltado por outro banqueiro qualquer também esfomeado.  


domingo, 29 de novembro de 2015

A bairrada está na moda. Se não está parece!

O espumante Bairrada fez anos! 125 Outonos! A primeira empresa vinícola produtora de espumantes, denominada - Associação Vinícola da Bairrada nasce a três de Novembro de 1893. Esta empresa, intimamente ligada à Escola de Viticultura e Pomologia da Bairrada, dirigida então pelo engenheiro agrónomo José Maria Tavares da Silva, é constituída por quatro sócios – o conselheiro José Luciano de Castro (Presidente do Conselho de Ministros em vários períodos da Monarquia Constitucional e líder do Partido Progressista), o comerciante abastado Justino de Sampaio Alegre, o jurista José Paulo Monteiro Cancela e o padre António Alves de Mariz, que desde o início assumiu a gerência da Associação. Um inÍcio abençoado é de ver!

Tratava-se de quatro amantes de champanhe que quiseram replicar em solo bairradino o famoso vinho francês. Para isso mandaram vir de frança o equipamento necessário e sobretudo o know-how, na pessoa do técnico francês M. Lucien Beysecke, por assim dizer o primeiro enólogo estrangeiro a trabalhar em solo nacional.  

Entre o ano de 1893 e a primeira metade do seculo XX nasceram na bairrada mais de três dezenas de empresas vinícolas de relevo que se dedicaram entre outros vinhos, à preparação de espumantes. A maioria destas empresas foi criada por comerciantes abastados, alguns regressados do brasil, homens viajados pelo mundo, de grande espirito empreendedor, habituados a celebrar com champanhe, que acreditavam que o espumante bairradino era um produto com elevado potencial económico e financeiro. Estas empresas estiveram na origem das maiores empresas bairradinas da actualidade, como as Caves do Solar de São Domingos, Caves Messias, Caves Borlido, Caves Monte Crasto, Caves Primavera, Caves S. João, Caves Aliança, entre outras. Eram tempos de grande dinamismo, à custa de homens visionários que lançaram as primeiras pedras de uma história que poderiam ter sido bem mais risonha.

Na verdade, a produção de espumante na bairrada cedo resvala para caminhos tortuosos. Se no início a ideia era fazer vinhos de grande qualidade capazes de rivalizar com os famosos néctares franceses, a verdade é que com a chegada de novos operadores depressa a produção de espumantes deixa de ser  direcionada para a excelência, para se tornar um subproduto da actividade vinícola. Muitas empresas apostam sobretudo na produção de vinhos tranquilos, reservando para a espumantização vinhos de menor qualidade ou até elaboram espumantes a partir de vinhos comprados fora da região, sem denominação de origem.
Desta forma o espumantes bairradino não percorreu o caminho antes idealizado, não se constituiu como um produto distinto e sobretudo não criou valor. Prova disso é o facto do preço médio de cada garrafa de espumante bairradino exportada se situar nos 2.90 euros, enquanto o preço médio de uma garrafa de champanhe se situa perto dos 17 euros.
Mas as coisas estão a mudar e muita coisa boa se tem feito nos últimos anos. Agora que os consumidores se cansaram dos vinhos politicamente correctos, educadinhos e normalizadinhos, a Bairrada parece ter caído no goto dos críticos. A bairrada está na moda. Se não está parece!
Para aproveitar esta onda, a Comissão Vitivinícola da Bairrada criou o projeto Baga Bairrada, uma iniciativa aberta a todos os produtores da Região, que pretende estabelecer um standard colectivo para o espumante "Baga Bairrada", um produto distinto, com regras de produção e identidade gráfica próprias.
Assegura um estilo que possa diferenciar os espumantes brancos de uvas tintas no mercado interno e também perspectivar a sua afirmação no mercado internacional, onde o espumante português por vezes tem dificuldades em afirmar as suas especificidades. O objetivo deste projecto passa, assim, pela promoção e divulgação, a nível regional, nacional e internacional, do valor natural e patrimonial da casta Baga, típica da região da Bairrada.
Refira-se contudo, a título de curiosidade e de soberana ironia, que o primeiro espumante branco feita com uvas da casta baga apresentado na camara de provadores da bairrada foi  chumbado por o seu perfil não se enquadrar naquilo que se definia ser o perfil bairrada de então. Foi há 25anos. Ainda recentemente um dos grandes brancos da bairrada foi também chumbado pela camara pelo mesmo motivo. Para muitos a camara de provadores ao invés de ajudar promover a região, é apontada como um factor de estagnação.

A Comissão Vitivinícola da Bairrada assinalou a efeméride no passado dia 27 de Novembro com um dia de debate acerca dos desafios do espumante bairrada e da casta baga. A discussão versou aspectos técnicos na vinificação da casta, mas sobretudo as opções estratégicas para levar o espumante baga ao mundo. Uma bela iniciativa com uma organização absolutamente irrepreensível! À hora do almoço foi servido um excelente leitão com batata cozida e uma seleção dos melhores espumantes bairradinos. A bairrada, a casta baga e os seus espumantes estão definitivamente nas bocas do mundo!  


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Gente que se recusa a morrer


 
Aquilo é tudo malta na casa dos setenta e tal. Gente que trabalhou uma vida inteira sem saber o que são férias, praias, hotéis ou outras mordomias. Gente que vingou sem favores, favorecimentos ou recompensas. Gente feliz com lágrimas que aprendeu na velha trilogia – Deus, pátria e família a não se queixar. Gente simples, humilde, que aprendeu a não dar passos maiores que a pernas, que construí a vida aos poucos, sempre no pouco, sem concessões, vertigens consumistas, empréstimos bancários ou outras invenções do capitalismo.
Gente que não comprou hoje para pagar amanhã. Gente que cresceu e constituiu família num quarto equipado com um estrado de madeira e um colchão de palha, um penico, um fogão e um WC arejado no cimo de uma meda de estrume, no meio do quintal.

Mas avisam logo – estamos aqui para vindimar, não contem connosco para carregar com os poceiros. É que estamos velhos!
 
O Arnaldo, quase nos oitenta, puxa dos galões do mais idoso do grupo e avança – Sabem? Trabalho na agricultura desde os onze anos. Por isso, quem quiser trabalhar que trabalhe, que eu agora só trabalho até ao meio-dia.
O Arnaldo, o meu pai o Zé Fonseca e o meu tio Zé Elísio, todos juntos somam mais de 300 anos de idade! É Obra! Andam todos de pé, mas o material acusa desgaste. Não há vértebra ou articulação que não estejam comprometidas. Comprometidas mas não ao ponto de lhes vergar o ânimo, que eles foram, no bom sentido, enxertados em corno de cabra e comeram o pão que o diabo amassou! Esta gente transporta o testemunho dos tempos. Um legado!
Depois havia o grupo dos quase cinquentões, constituído por mim, pelo Manelote e pelo Peralta, todos nascidos na transição do tempo em que uma sardinhas assada dava para dois e as papas Cerelac! Nem sei bem ao certo a que é que comíamos! Somos um pouco híbridos!
Em comum temos também um certo declínio físico! Fortes dores de costas e outros sinais de cedência físico e/ou mental. Já não somos propriamente aqueles rapazotes capazes de saltar como as cabras do monte, embora o substantivo cabras nos seja bastante familiar. Mas é uma pena, éramos todos tão novos e saudáveis! O que nos vale é que à medida que vamos envelhecendo fisicamente, vamos também perdendo o discernimento!
Iniciamos a vindima na Vinha das Penicas às 8h30 e terminámos por volta do meio-dia e meia. Pelo meio uma retemperante bucha com sardinhas, queijo, presunto, asas de frango fritas e pão, regadas por minis e vinhos tintos e espumantes da mesma vinha. Foi a única actividade em que nos portamos como rapazes novos!
A verdade é que ter dores físicas é um grande privilégio - Estamos vivos e a fazer coisas que gostamos. Noutros tempos ninguém chegava à nossa idade. Morriam todos cedo. Aquilo era uma pressa. Desde a pré-historia até à idade moderna, morrer na casa dos trinta e poucos era uma moda. Os gajos não se queixavam de nada, morriam com a coluna nova em folha e as costelas intactas, não tinham diabetes, que as pastelarias eram raras, nem obesidade ou colesterol que aquele pessoal era danado para correr! Alzheimer e Parkissonismo nem sabiam o que aquilo era. Raramente se via um careca na rua e não havia um único lar de terceira idade. Aquele pessoal quando morria era de vez!

Mas nós não somos uns insatisfeitos. Deram-nos anos de vida e nós queremos mais. Dão-nos um dedo e queremos logo o braço todo. Queremos andar por ai até aos cem sem dores, sem rugas e cheios de tesão e sobretudo felizes todos os dias, como se a tristeza não fizesse parte e não fosse essencial à condição humana. Para isso besuntamo-nos diariamente com cremes caros, tomamos elixires mágicos a toda a hora e, se necessário, tomamos até uns certos aditivos!
Convivemos mal com o envelhecimento e sobretudo com a morte. Cada vez mais somos tentados a prolongar a vida, distanciando-nos da morte, não pensando nela ou procurando escondê-la.
 
Com o acentuar do laicismo, afirma-se cada vez mais que após a morte nada há mais, o que modifica o comportamento humano e incentiva cada vez mais a viver a vida, a gozar os prazeres dos sentidos corporais. Escondemos a morte das nossas vistas em lares e hospitais e os corpos, esses, ultima prova do nosso declínio, são queimados em crematórios longe da vista!

Na Idade Média a morte era um acontecimento público. Ao pressenti-la, o moribundo recolhia ao seu quarto, acompanhado por parentes, amigos e vizinhos, cumpria um ritual - pedia perdão por suas culpas, legava seus bens e esperava a morte chegar. Não havia um carácter dramático ou gestos de emoção excessivos. O corpo era enterrado nos pátios das igrejas – que também eram palco de festas populares e feiras. Mortos e vivos coexistiam no mesmo espaço. A partir do séc. XIII foram proibidos jogos, danças e feiras nos cemitérios: começava a soar incómoda a proximidade entre mortos e vivos.
Hoje, exceptuando os vivos que não foram avisados da sua morte, o único sítio onde mortos e vivos coabitam pacificamente é nos cadernos eleitorais. Ainda nas últimas eleições um indivíduo vivo e cheio de saúde foi impedido de exercer o seu direito de voto por estar morto e outros, supostamente vivos, não compareceram nas urnas por estarem mortos. Um confusão, que só tem paralelo nos cadernos de registo de sócios dos clubes de futebol!  Enfim, somos uns felizardos por sermos, estarmos e parecermos vivos!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Orgia

Acordei molhado, corpo fumegante, envolto em fluidos quentes e húmidos que deixavam adivinhar o deboche, a conduta devassa. Emanava no ar uma complexa dança de aromas - uma mistura estranha de odores a pão quente, citrinos, frutas tropicais e um cheiro fétido a peixe. Eram sacos por todo o lado!
Ali prostrado contra aquele mar de materiais orgânicos poliméricos sintéticos, de constituição macromolecular, com os olhos fixos no tecto, saciado, tentava voltar a mim e recuperar da respiração ofegante depois daquela overdose de polietileno de baixa densidade.
Eram sacos de todos os formatos e feitios, opacos, transparentes, coloridos, finos e espessos, de linha branca e personalizados. Do Lidl, do Continente, do Jumbo, do Pingo Doce, da Loja dos Chineses, da mercearia do lado, do Minipreço, ai a sensualidade dos do Minipreço! No sonho, a cama eram um mar de sacos de plástico que a transformavam numa nuvem leve e sensual, qual colchão de água. Rebolei-me ali, com os sacos apertados contra o peito, até que um sentimento de saciação orgástica tomou conta de mim. Finalmente acordado, confirmava a crua e cruel realidade – o coirão do governo acabou com os sacos de plástico. Estou viciado em sacos de plástico. Dependente!
Com tanta merda para taxar, estes animais foram logo lembrar-me de taxar os tristes dos sacos de plástico. As malas de viagem dos pobres! Assim sem avisar! Em Portugal é assim, somos maníaco-depressivos, ou não fazemos nada ou fazemos tudo à pressa, em cima do joelho, tipo vender o novo banco e a tap por tuta e meia. Há em nós uma espécie de atração pelos polos. Nos bons e maus momentos adoptamos posições que deambulam entre os oito e os oitenta. E pior, passamos de uma posição para a outra num abrir e fechar de olhos! Ou acabamos tudo de uma hora para a outra ou perpetuamos ad aeternum outras, como os previliégios dos juizes por exemplo, que garantem privilégios do tempo do império romano.
Mas acabar desta forma com os sacos é demais! Um gajo ia ao supermercado comprava oito produtos que punha em dezoito sacos e ainda enchia outro saco com mais quarenta sacos para qualquer eventualidade, que os portugueses são prevenidos. Os sacos davam cá um jeito para apanhar o cocó do cão ou para usar na cabeça em dias de chuva ou até para dar uma queca no mato ou quiçá em substituição do preservativo.
Mas porque é que o governo não se lembra de taxar as nomeações políticas e a ascensão nas carreiras dos políticos? Por exemplo a carreira do Armando Vara renderia montes de papel. Se atentarmos no percurso do outrora caixa de banco, provinciano, pobretana e mais recentemente doutor, administrador e multimilionário era só faturar! Aquilo é que foi saltitar! Era vê-lo de cargo em cargo até se fixar nos calabouços da Policia Judiciária. Se houvesse mais cargos superiores e melhor remunerados, mais o animal teria subido! Mas não confundamos este Vara com outra vara, um conjunto de porcos, para não ofender os ditos. Já repararam o dinheiro que este homem tinha rendido aos cofres do estado se fossem tributadas as suas nomeações políticas?
A extinção dos sacos de plástico dos supermercados era pois evitada assim desta forma abrupta. Poderia ter havido um período de transição, tipo primeiro acabavam os do Lidl, que são alemães, depois os do continente e assim sucessivamente até 2165! Mas não. Foi tudo à bruta! Não acontecia uma extinção em massa tão dramática desde a extinção dos dinossauros! Agora um individuo anda aqui a ressacar sacos de plástico. Quer um simples saco, corre a casa toda e nada. É uma dor de cabeça. Antigamente tínhamos até umas caixas de plástico próprias compradas nos chineses para os arrumar. Aquilo era super divertido, agente puxava e saía um saco surpresa! Eram sacos por todo o lado, nas portas laterais dos carros, nos bolsos, nas despensas, debaixo da cama.
Os ucranianos e outras criaturas de leste embelezavam as ruas das nossas vilas e  cidades vindos do Lidl com eles cheios de latas de feijão frade e atum. Agora não, as ruas estão tristes!
O saco de plástico tornou-se um objecto de culto só acessível às minorias intelectuais. Um dia, daqui a sessenta ou oitenta milhões de anos, tal como acontece com o dinossauros, a humanidade vai encontrar por essas serras uns plásticos fossilizados e expô-los-á em museus. Vão chegar excursões de pacóvios de todo o lado para contemplar tamanho achado.
O pior é o pessoal que anda ai a bater mal por falta de plástico. Há já casos de síndromes de abstinência, vulgo ressaca, com aumento generalizado da ansiedade, ataques de pânico, depressão e ideação suicida! Naturalmente que a venda de antidepressivos e ansiolíticos disparou.
Segundo as más-línguas isto foi tudo pensado estrategicamente pelo governo para sacar mais uns milhões em taxas moderadoras nos hospitais. Isto é que é visão estratégica. Os outros nem uns cartazes de campanha conseguem fazer! O pior é que já há quem sonhe com sacos de plástico.
 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Ouro bebível

Os números não deixam dúvidas, a tendência de crescimento do consumo mundial de espumantes é cada vez mais evidente. Ao longo dos últimos dez anos, a procura cresceu 30%, para 17,6 milhões de hectolitros em 2013. Os principais produtores vigiam-se de perto, num subsector em mutação acelerada e cada vez mais competitivo.


A França continua a liderar o ranking mundial de produção, mas a sua importância relativa no cenário global está a diminuir e o primeiro lugar apresenta-se mesmo sob ameaça da Itália, já com 18% da produção mundial, enquanto a Alemanha vem a seguir com cerca de 15%. Rússia e Espanha repartem o quarto lugar.

Apesar dos quatro gigantes europeus do sector, França, Itália, Alemanha e França, serem ainda responsáveis por quase dois terços da produção mundial (63%), a verdade é que a sua importância diminuiu consideravelmente, representavam 74% em 2003, e há a registar verdadeiras explosões de produção em vários países no decorrer do último dez anos. Os EUA registaram um crescimento de 25%, a Austrália 29%, a Rússia duplicou a sua produção e a Argentina registou um acréscimo de 200% nesse intervalo de tempo. Números impressionantes, mas superados pelo campeão do crescimento, o Brasil, onde em 2013 se produziu 248% mais espumante do quem 2003.

Em Portugal, os espumantes ainda são maioritariamente de consumo episódico: nas festas de Natal e do Ano Novo, na Páscoa, nos casamentos, baptizados e aniversários. Mas existem indicadores seguros que anunciam um aumento importante dos selos de certificação e as lojas e garrafeiras reportam números cada vez mais robustos relativos à venda do vinho com bolhinhas.

Acredito que na base desde sucesso está sobretudo, a qualidade dos espumantes actuais. Longe vão os tempos em que só os vinhos inferiores, normalmente brancos e tintos inicialmente pensados para fazer vinhos maduros, se destinavam, por falta de qualidade, à produção dos espumantes. Hoje, só quem estiver muito desatento não terá percebido a notável transformação qualitativa dos espumantes nacionais ao longo dos últimos anos. Na base dessa revolução estão vários factores, relacionados com a vinha e com a adega. Castas enologicamente mais aptas para o fim em vista, como Arinto, Chardonnay e, cada vez mais, variedades tintas vinificadas em branco, como Pinot Noir ou Baga, a procura de uvas de zonas mais frescas ou colhidas mais cedo, a utilização de melhores prensas, leveduras adequadas, temperaturas mais baixas e estabilizadas nas fermentações e, acima de tudo, a consciência por parte dos produtores de que este é um produto nobre e adiciona mais valias importantes. Tudo isso contribuiu decisivamente para imagem muito positiva da actual qualidade dos espumantes portugueses.

Os espumantes adequam-se a qualquer hora do dia e a todas as circunstâncias da vida. O enorme leque de espumantes existentes no mercado, desde os brancos e rosés, passando pelos tintos e acabando nos brancos vinificados a partir de uvas tintas, sobretudo da baga e pinot noir, oferecem uma solução de harmonização gastronómica ajustada a qualquer prato, a qualquer companhia, a qualquer circunstância. Os espumantes podem acompanhar quase todas as refeições, das entradas à sobremesa. São um exemplo de polivalência, um vinho admirável sob os mais diversos pontos de vista.

Esta democratização do consumo de espumantes tem também revelado fenómenos curiosos. O primeiro deles é o aproveitamento por parte dos produtores da enorme aceitação e aptidão gastronómica dos espumantes brutos e naturais pelo mercado. São os brutos os mais procurados. Muitos produtores fazem o dois em um e apresentam os seus brutos com adições de açúcar no limite superior permitido por lei, fazendo assim brutos mais docinhos, capazes de agradar tanto a consumidores mais exigentes, como a públicos mais adeptos do coisas menos amargas e ácidas, como sejam os jovens consumidores e sobretudo o público feminino. O outro fenómeno prende-se com a explosão de marcas brancas nos supermercados a preços muito mais baixos, onde se nota nos vinhos uma maior intervenção enológica para correcção da esperada menor qualidade das uvas que deram origem a esse vinhos. Alguns desses vinhos parecem mais xaropes gaseificados que espumantes e estão muito longe da exigência que tem incrementado esta enorme transformação qualitativa dos espumantes nacionais.

Tchim, tchim!

sábado, 16 de maio de 2015

Os encaralhadores


 
 

























A arte do encaralhanço é um desporto nacional! É levada a cabo por encaralhadores profissionais. Estes profissionais do encaralhanço estão presentes em todo lado. Uns são nossos vizinhos, outros conhecidos, colegas de trabalho ou até nossos chefes. O seu objectivo é basicamente impedir que a coisa avance. São aqueles tipos ou tipas que nem fodem nem saem de cima! Nem lá vão nem deixam ir! Há-os em todo lado, sobretudo nas repartições públicas. Mas existe uma classe onde eles se encontram em abundância – na classe das chefias! São os casos mais graves!
 

A maioria dos portugueses alimenta um sonho secreto – o de um dia chegar a chefe de qualquer coisa! Chefes há-os de todos os géneros, uns são chefes de outros chefes, outros apenas de alguns trabalhadores, outros apenas chefes de si próprios, outros de merda nenhuma. Estes últimos são os que menos prejuízos dão à nação. Mas dizia eu, se um dia o tal gajo que sonha ser chefe conseguir concretizar o seu sonho, no dia seguinte, põe em prática a arte do encaralhanço.

 

Primeiro começa por dizer mal do chefe anterior – um incompetente, um encostado, um burgesso. No segundo dia de trabalho toma a sua primeira medida! Mudar a disposição do gabinete. Dispõe todos os móveis ao contrário do seu antecessor. Mesmo que não existam fichas eléctricas adaptadas à nova disposição, ele inventa e transforma aquilo numa central eléctrica, com extensões e cabos eléctricos pelo chão ao ponto de um gajo, se não tiver atenção, cair e partir os cornos contra uma esquina qualquer. Finalmente coloca umas fotos de família para marcar o território, como fazem os cães. Só não alçam a perna e mijam para as pernas dos móveis por sorte. Aquele passa a ser o seu território.

 

Depois dessa revolução, altamente estratégica, que ocupa todos os funcionários durante uma semana, o gajo passa ao passo seguinte – reformular procedimentos. Então, independentemente da eficácia dos anteriores, ele adopta um exaustivo pacote de novos procedimentos para encaralhar. Mesmo que se revelem disfuncionais, ele mantém-nos teimosamente só para ficar claro que quem manda naquela espelunca é ele e mais ninguém.

 

O passo seguinte, consiste em rejeitar todas as ideias (boas e más) que lhe proponham, não vão elas tirar o brilho à sua extraordinária liderança. No fundo o que o encaralhador quer é deixar a sua marca, sentir-se como o galo no poleiro.

 

Se um gajo propõe uma ideia, ele não aceita à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Tem que reflectir. Ponderar! Pesar os prós e os contras. Pede uns dias. Depois arruma a proposta na gaveta e com um bocado de sorte nunca mais vê a luz do dia. É arquivada automaticamente. Nunca mais se ouve falar de tal merda!

 

Apesar de não acontecer nada! O gajo marca reuniões regulares! Aproveita-as para esfregar o seu sôfrego ego. Fala de umas viagens que fez com a mulher em mil novecentos e troca o passo às Caraíbas, a Palma de Maiorca, à romaria do Santoinho e à puta que o pariu. Fala de uns projectos em que esteve envolvido, nos quais teve papel relevante, senão fundamental, com resultados verdadeiramente estratosféricos.

 

Enquanto isso, um gajo vai gatafunhando uns bonecos nas folhas pagas pela repartição. Acrescenta umas linhas, mais umas linhas, até que constrói uma banda desenhada! Depois faz a lista do supermercado, idealiza o jantar, o vinho para o acompanhar, projecta um vinho da próxima colheita e quando de repente acorda, volta à realidade e dá com o gajo todo babado, ainda a falar dos seus feitos heróicos!

 

Entretanto fala apaixonadamente dos projectos futuros, enumerando uma lista exaustiva de novas ideias de que vais ouvir falar pela primeira e ultima vez.

 

O encaralhador não toma decisões. Tem medo de ferir susceptibilidades. É redundante, teórico, abstracto. A melhor forma de se manter no cargo é não fazer ondas. Faz uma gestão tranquila. Nunca toma partido. Mantém-se ali naquela zona de conforto, na terra de ninguém. Na ambivalência!

 

Um dia, porque se portou bem e até fez uns favorezitos a um outro encaralhador, será promovido ao posto de encaralhador-mor! Até que um dia chegarão encaralhadores de outras cores e vão todos para o caralho!

 

Ai a coisa recomeça. A primeira acção do novo encaralhador é dizer mal do seu antecessor, depois reconfigura o seu gabinete.