quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A nobre arte de não usar carteira

Em Portugal, como noutros países de sangue quente, solarengos e de tendência esbanjadora e corrupta, o melhor indicador do sucesso pessoal de uma figura pública é a sua necessidade de usar um simples e banal objecto - A carteira de bolso.  Ah! Pensava que o sucesso pessoal de um político neste país se mede pela excelência do desempenho, pelos resultados alcançados, pela capacidade de liderança ou pela inteligência e sentido estratégico das decisões tomadas em proveito de todos? Nada disso, está enganado!

Neste país ocupar um lugar público, antes de mais, é uma oportunidade! Uma oportunidade de juntar um bom pé de meia, assegurar uns tachos e umas negociatas para familiares e amigos e sobretudo, traficando influências, realizar uns quantos bons negócios, que permitam engrossar substancialmente o  património pessoal.

Por exemplo, o Mário Soares, esse bonacheirão, esse porreiraço, não usa carteira há mais de 50 anos! Com certeza já nem sabe o que isso é. Desde os tempos do exílio dourado em S. Tomé e Paris até às benesses concebidas pelo nosso generoso regime democrático, nunca foi visto a pagar fosse o que fosse com a sua própria carteira. Um homem de sucesso portanto! Mas esse é um porreiraço e agente a gajos porreiros tudo perdoa!

O professor Cavaco Silva, não sendo político, como tanto gosta de sublinhar, (afinal o tipo é o quê? Ninguém sabe!) também não usa carteira desde o dia em que foi fazer aquela famosa rodagem do carro à Figueira da Foz em 1985 e o obrigaram a tomar conta do partido. Também nunca mais comprou carro, meteu gasolina, pagou portagens ou outras dessas merdas que gajos sem estilo como eu têm que pagar todos os dias. Agora, há quem afirme que vive em estado de hibernação lá para os lados de Belém. Acredita-se que envia de tempos a tempos uns sinais de fumo através do facebook! Mas nós perdoamos, o gajo tem cara de sério! E a gajos com cara de sério nós perdoamos tudo!

Outro homem de sucesso é o maestro Miguel Graça Moura, agora acusado injustamente pelo Ministério Público de se ter apropriado indevidamente de 720 mil euros de dinheiros públicos para fins pessoais quando estava à frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa. É acusado, entre outros factos, imagine-se, de ter gasto 720 mil euros de dinheiros públicos em artigos de lingerie masculina e feminina, em compras em supermercado, vinhos, charutos, joias, viagens e obras de arte. O homem é um bon vivant claro está. Os vinhos e os charutos são coisas banais, agora aquela coisa da lingerie, porra, é de estilo. Até aposto que comprou também viagra, algemas e chicotes e uma bisnaga de vaselina com o nosso triste dinheiro! É de artista! Mas os artistas são excêntricos, nós achamos graça e aos artistas tudo perdoamos!

Ao Dr. Jardim, outro que nunca usou carteira, nós também perdoamos tudo. O homem é um fanfarrão, um bem-disposto, um sedutor. A agente a esse tipo até paga de bom grado os charutos, umas caixas de o whisky, viagra, quecas, até aos os ajudantes para o carregar para cima da puta. Da puta que o pariu, que ele é um querido!

O Relvas é outro exemplo de político bem-sucedido. Mas é um esforçado, um lutador! Inscreveu-se pela primeira vez no ensino superior em 1984, no curso de Direito da Universidade Livre, uma instituição privada. Foi sempre um trabalhador, um trabalhador-estudante. Em 1985 concluiu, após frequência escrita e prova oral, a disciplina de Ciência Política e Direito Constitucional, com a classificação de 10 valores. Esse feito lançou-o para a vida!

Em Setembro desse ano pediu transferência para o curso de História, ainda na Universidade Livre. Matriculou-se em sete disciplinas, mas não fez nenhuma. Deputado à Assembleia da República, entre 1985 e 2009, presidente da Assembleia Municipal de Tomar, entre 1997 e 2012. O resto da história já vocês sabem!

Nunca foi visto a pagar nada do seu bolso. Até a conta do telemóvel,  cerca de 400€ mês, foi paga até 2012 pela Assembleia Municipal de Tomar. Hoje é paga pelo estado central claro está! Recebe ainda subsídio de deslocação por supostamente viver em Tomar e trabalhar em Lisboa. Actualmente está merecidamente reformado. Mas continua a trabalhar. É um exemplo para os nossos filhos!

Mas nem todos os países tratam assim pomposamente os sacrificados representantes dos órgãos do estado. A Austrália por exemplo tem cinco vezes mais população e apenas metade dos deputados. São democracias mais fracas claro está!

Na Suécia, os deputados não têm privilégios ou mordomias especiais. Os seus cargos são vistos como uma missão pública. Se quiserem viver no centro de Estocolmo, por exemplo, vivem em pequenos apartamentos, não têm empregados ou motoristas e chegam até a partilhar a cozinha. Os deputados ingleses, esses palermas, usam transportes públicos e pagam tudo do seu próprio bolso, excepto viagens em serviço. Mas claro, a Inglaterra é um país sem a nossa cultura democrática!

Em Portugal não! Se um secretário de estado for a uma vila inaugurar uma  rotunda, aparecem lá seis carros topo de gama, doze motoristas e cada carro transporta ainda mais quatro gajos de óculos escuros, bem vestidos e ar de lambe botas. Todos sem carteira!

Também é verdade que os nossos políticos jamais poderiam descolar-se em transporte públicos. Somos os campeões europeus em rede de auto-estradas, com uma média de 176m de auto-estrada por mil habitantes, mas não temos um Plano Ferroviário Nacional. A rede ferroviária não tem merecido um tal estatuto, tendo inclusive fechado massivamente linhas históricas em Portugal, como o ramal da Lousã, por exemplo, muitas delas para além da mais valia para as populações locais, eram verdadeiros ex-líbris em termos turísticos.

Mas isso é um pormenor comparado com a imponencia do projecto do TGV!!! Um gajo ia de TGV até ao porto e depois viajava de burro pelas aldeias remotas do alto douro. Pena terem acabado com esse magestoso projecto! Mas isso é outro assunto!

Um gajo anda aqui só a ver passar os comboios. A primeira coisa que eu faço logo que me levanto é enfiar a carteira no bolso, não vá precisar dela no caminho até à casa de banho. Já outros, precisam dela até para se deitar e ter uma noite agradável. Enfim, estatutos!

São milhares as figuras que não usam carteira em Portugal, entre deputados, membros do governo, assessores, secretários, motoristas, entre outros oportunistas. Só o nosso primeiro ministro tem dez motoristas em permanencia ao seu exclusivo serviço!

Agora vocês dizem-me: - Sim, é verdade, mas não é por aqui que o país se afunda. Ao que eu repondo: - Não só, mas também é por aqui.
- Mas um país que pede tamanho sacrifício aos seus concidadãos tem o dever moral de começar a cortar por cima, pelo número de deputados, ministros, secretários de estado, assessores, motoristas, secretários, privilégios e mordomias ilegítimas. É simbólico? É, mas uma democracia também se faz de coisas simbólicas!

Por isso neste natal, simbolicamente, vamos oferecer uma carteira ou porta-moedas a cada um dos nossos governantes!
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Psicodrama Moreniano - Parte 2

 Júlia tem 38 anos, é casada e mãe de dois filhos já adolescentes. Casou cedo com o primeiro e único namorado. Foi sempre muito “agarrada” à sua mãe, que perdeu há mais ou menos um ano. Apesar de todo o seu afecto pela sua progenitora, nunca lhe tinha dito em vida o quanto a amava. Júlia era uma mulher defendida e fechada nos afectos. Uma linguagem que dominava mal. No dia da morte da mãe encontrava-se fora em trabalho e não tivera oportunidade de se despedir ou sequer tempo para um último beijo em vida!
O seu casamento já vivera melhores dias, suspeitava inclusivé que o seu companheiro pudesse ter uma relação extraconjugal. Os filhos, absorvidos pelas suas carreiras académicas e profissionais, pouco tempo passavam em casa.
Júlia deprimiu. Deprimiu gravemente, apresentava um discurso vazio, sem projectos ou sentido de vida consistentes e sobretudo uma recorrente ideação suicida, valorizada pela equipa terapêutica, que se arrastou por algumas semanas. Júlia nunca o disse claramente, mas alimentava o secreto desejo de se juntar à sua mãe.
A equipa terapêutica perante o diagnóstico e sobretudo pela reserva do prognóstico, manteve-se vigilante e foi ao longo das sessões dando suporte à paciente.
Algumas sessões mais tarde o director, quando sentiu que Júlia estava emocionalmente mais preparada propôs-lhe duas dramatizações:
Numa primeira sessão pediu-lhe que dramatizasse no cenário (palco) uma última conversa com a mãe. Júlia escolheu o elemento feminino mais velho do grupo, que fez de sua mãe e iniciou-se o diálogo, com recurso à técnica de inversão de papéis.
 A Júlia pode dizer à mãe tudo o que sentia e tudo o que tinha ficado por dizer. Já no lugar da mãe, disse o que pensava que a mãe diria. A conversa teve uma enorme intensidade emocional. Júlia pode despedir-se finalmente da mãe.
Numa segunda sessão, atendendo à ideia recorrente de suicídio de Júlia, o director propõe-lhe que se realizasse o seu próprio velório. Já que ela queria tanto morrer!
Ela simbolicamente morta, deitada no palco, cheia de flores por cima e coberta com um manto de seda preto (parte dos materiais obrigatórios), ouviu durante alguns minutos os outros elementos do grupo (egos auxiliares) nos papéis do pai, do marido e dos dois filhos, dizerem frases chave, devidamente instruídos pelos egos profissionais e director.
Depois de muitas provocações, o ego auxiliar que representava o papel da filha grita: “Como foste capaz, sua cobarde! Como pudeste deixar-me sem mãe! Gosto tanto de ti! Precisava tanto de ti!
De súbito, Júlia dá um salto e grita “ Merda, merda eu não quero morrer! A ideação suicida parou.
 
O psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno, foi o criador do Psicodrama e do Sociodrama. Moreno nasceu em Bucareste, na Roménia em 1889 e faleceu nos EUA em 1974. Contemporâneo de Freud, do qual cedo se demarcou ideologicamente, foi um exemplo de criatividade e dedicação à investigação psicológica e social, deixando uma obra escrita reconhecida e um movimento psicodramático fortemente implantado nos EUA, América do Sul e Europa. Moreno propôs uma especie de fusão entre o teatro espontâneo e a psicologia.

O psicodrama é uma terapia individual, realizada em grupo, que através de uma teoria, de instrumentos e técnicas específicas permite aos pacientes dramatizar (dar movimento, dar vida) ao seu mundo interno num cenário (palco). Não se tratando de teatro, porque aqui o protagonista representa os seus próprios papéis, é possível por à “luz do dia”, as suas angústias, medos, frustrações, fantasias etc…
A sessão de psicodrama tem três fases. A primeira comporta dois momentos, o aquecimento inespecífico, na qual o director procura seleccionar o protagonista e o aquecimento específico, em que o director se foca já sobre o elemento que vai dramatizar. Segue-se então a dramatização em que o director convida o protagonista a subir ao cenário, procurando que ele reconstitua nesse espaço todo o contexto da sua vivência, tornando-a assim visualizável.
Na última fase fazem-se os comentários. Tal como o público, no teatro ou na vida, comenta o desempenho dos protagonistas, no psicodrama também o auditório se vai pronunciar sobre a dramatização, dando informações para uso futuro do protagonista. O grupo é ele próprio um agente terapêutico. Seguem-se os comentários dos egos profissionais e por fim o do director, a quem cabe encerrar a sessão.
A acção terapêutica do psicodrama resulta, em grande parte, do jogo entre protagonista e egos auxiliares que decorre durante a dramatização. Porém para que isso possa acontecer, o psicodrama dispõe de um certo número de técnicas. As principais são a inversão de papéis, solilóquio, interpolação de resistências, técnica de espelho, duplo, representação simbólica, objecto intermediário e estátua. São técnicas secundárias a auto-apresentação, Átomo social, role playing e jogos dramáticos.
 
Na lápide de Moreno está inscrito “ Aqui jaz o homem que trouxe a alegria à psiquiatria”

Saudações psicodramáticas para todos!
 
 
A teoria psicodramática Moreniana pode ser encontrada em diversos livros traduzidos e editados no Brasil. O maior psicodramatista vivo é o brasileiro Alfredo Soeiro, que vai estar amanhã, dia 9 de Novembro, na Lousã, no XI congresso da Sociedade Portuguesa de Psicodrama.

sábado, 3 de novembro de 2012

Psicodrama para todos

Ela foi abusada sexualmente dos 13 aos 15 anos. Como na maioria destes casos, o agressor andava por perto. Era um dos irmãos mais velhos. Tratava-se de uma família de muitos filhos e pouca condição, viviam numa pequena aldeia na ilha da madeira. Alguns dos irmãos mais velhos partiram cedo para outras paragens. Na altura dos abusos habitavam a casa,  a vitima, a irmã mais velha, os pais e o irmão agressor. Ela apenas se livrou dele quando este emigrou para os Estados Unidos. Mais tarde livrou-se da casa e das memórias mais frescas  quando veio estudar para Coimbra. Nunca mais voltou.
Agora tudo se complicara. Um irmão, emigrado nos EUA vem para casar. É inevitável o reencontro. Todos se vão juntar na mesma ilha, na mesma aldeia, na mesma casa, nas mesmas memórias. A sua ansiedade crescera brutalmente nas últimas semanas. Maria estava à beira do descontrolo. Viveu a dor silenciosamente durante anos. Mas não aguenta mais.

A directora do grupo de psicodrama, Joana Amaral Dias, depois do aquecimento psicodramático, pede a Maria que antecipe a cena do reencontro familiar no cenário (palco). Ela fixa os olhos assustados na directora. Olha para o palco, volta a olhar para a directora. Olha para mim, o Ego Auxiliar e avança em silêncio, cabisbaixa para a cena. Ela era a protagonista da dramatização daquela sessão.
No palco constrói uma grande mesa de jantar com os bancos e à sua volta senta os vários elementos, escolhidos por ela entre o grupo, que irão representar as várias personagens da sua família. Na mesa, simbolicamente, estão agora ela, a irmã mais velha, a quem na altura tinha pedido ajuda, a mãe, o pai e o tal irmão agressor. Todos os papeis são representados por elementos do grupo (egos auxiliares), excepto o do irmão agressor que é representado por mim (ego profissional), por decisão da directora

Os diálogos começam recorrendo à técnica psicodramática de inversão de papéis. A Maria começa a interacção. Primeiro dirigisse à irmã e questiona-a sobre o seu silêncio – Porque não me proteges-te? Segue-se a troca de papéis, a Maria troca de lugar com a “irmã” e já no papel dela responde – Tive medo das consequências. Ele ameaçou-me. Nas trocas seguintes a tensão sobe brutalmente. A Maria de olhos anormalmente abertos desfaz verbalmente a irmã com acusações contundentes. Está descontrolada. O seu rosto e o olhar pulverizam raiva. Segue-se a inversão de papéis com o irmão.
- Porque me fizeste aquilo seu porco? No papel do irmão e após algumas inversões de papel pressinto-lhe no olhar e no silêncio a fúria prestes a explodir. De repente a Maria acerta-me com um murro na cara com tal força que vejo estrelas e sinto-me projectado contra a parede do consultório. A directora interrompe a dramatização. Ela desata num choro descontrolado durante uns bons dez minutos. Descarrega toda a tensão. Fica tranquila. Acaba de ter uma catarse de integração.

Maria partiu pouco depois para a ilha da Madeira e o reencontro aconteceu sem ocorrências. Ela não mudou nada no seu passaso, mas naquela sessão integrou o passado de uma forma diferente. O passado é o mesmo, mas a forma como Maria o vive alterou-se profundamente.

Protagonista, director, egos auxiliares, auditório e cenário, são palavras que têm um significado específico no psicodrama moreniano. Fazem parte de léxico que, como em qualquer outra psicoterapia, permite demarcar a interacção terapêutica da interacção pessoal na vida real. Estes cincos conceitos são também os que designam os “cinco instrumentos do psicodrama”.
Então vejamos, onde se fazem as sessões do psicodrama?
O psicodrama de grupo é realizado numa sala que em muitos casos tem poucos mais de três por quatro metros e um jogo de luzes coloridas. No centro existe um estrado baixo, a que chamamos cenário ou palco, sobre o qual estão colocadas, num dos topos, duas cadeiras vazias encostadas pelas pernas da frente. Estas cadeiras são o símbolo do psicodrama e, nesta posição, significam o encontro que se vai processar. Quando o director as abre, inicia-se uma dramatização.

O Cenário é o espaço nobre do psicodrama. É o equivalente ao palco teatral. É neste espaço que se processa a acção, a representação terapêutica comandada pelo director. Para a sua execução, o protagonista pode pedir que outros elementos representem pessoas e pode compor o cenário com móveis e objectos presentes na sala, concretizando melhor o espaço representado. A forma simples e maciça dos bancos do auditória presta-se bem a este fim.
O auditório, conjunto de todos os elementos do grupo, o público portanto, deve-se aperceber de que o cenário é um espaço de liberdade. Tudo, desde as vivências mais banais às fantasias mais secretas, se pode representar nesse espaço, e tudo é reversível. O tempo pode avançar e recuar, uma acção pode ser repetida e modificada conforme as suas consequências. Pode-se simbolicamente matar ou morrer. Não se pedem contas pelo que cada elemento faz no cenário, contando que o director pode sempre cortar a cena ou intervir de outro modo.
 
O protagonista é quem vai utilizar o cenário (palco). É o elemento que, no início da sessão, no aquecimento, se destaca do grupo pela importância ou oportunidade das vivências que traz à discussão. Nesse caso ele pode ser convidado pelo director para representa-las no espaço do cenário.
 
Durante a dramatização o protagonista interage com os chamados egos auxiliares. Estes são escolhidos, de entre os outros elementos do grupo, a fim de representarem as pessoas com quem, na vida real ou na sua fantasia, ele interage. É entretanto indispensável que a equipa terapêutica inclua, para além do director, um o dois egos auxiliares com treino em psicoterapia e psicodrama, a fim de executar papeis mais difíceis e certas técnicas e colaborar com o director durante toda a sessão.

Tal como o teatro ou a vida social não existem sem plateia ou o público, a dramatização não tinha sentido sem o seu próprio público, o auditório. Este é então constituído pelos membros do grupo que permanecem sentados, ou sejam que não entraram na dramatização.
Finalmente, o director é o principal terapeuta e o responsável por todo o processo do psicodrama. Apesar de contar com a colaboração dos egos auxiliares, cabem ao director todas as decisões importantes. É ele que inicia e finda as sessões e as dramatizações, analisa o material relevante e elabora as estratégias, controla o aquecimento, escolhe o protagonista e finaliza os comentários.
(continua)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Isaltino a Procurador-geral da República


Em Portugal não é fácil ir preso. Veja-se o infeliz exemplo do azarado Isaltino Morais. O homem tem feito de tudo para ir preso e não consegue. Ele recebeu sacos cheios de dinheiro no seu gabinete. Ele licenciou obras a troco de umas massas. Ele mandou à descarada pazadas de euros para o sobrinho na suíça e nada. Nunca teve sorte.

Mais sorte teve aquela velhinha no Porto que, por roubar uma caixa de pensos higiénicos no supermercado apanhou 6 meses de cadeia. Bem feito! Para que é que a velha queria pensos higiénicos. Com certeza para trocar por droga, montar uma conspiração ou outra coisa perigosa para a nossa democracia. Abusou. Lixou-se! O estado tem que ser implacável com estes casos. Mas o Isaltino não. Esse nasceu sem sorte. E isto de ir preso não é para todos! Não vá um gajo desviar uns milhões e querer logo ir preso por dá cá aquela palha. Não! Isto aqui chia fino. É uma justiça à seria!

Outros, coitados, também têm tentado de tudo mas nada! Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Duarte Lima, Armando Vara e Sócrates, são apenas exemplos de gente sem sorte.

De qualquer forma penso que deveríamos dar o valor a quem o tem. Em Portugal impera uma invejosice mesquinha que nos impede de reconhecer o mérito pessoal. Isaltino Morais provou em tese aquilo que muitos académicos nunca conseguiram - Que em Portugal é possível não ir preso quando se tem dinheiro e acesso aos grandes gabinetes de advogados. Esse mérito ninguém lho pode tirar. Existem por ai milhares de teses de mestrado e doutoramento, de grandes figuras académicas, que nenhuma utilidade e interesse têm comparado com a fantástica tese de Isaltino Morais. E isso é obra!

Desta forma uma estátua sua em frente à Procuradoria-Geral da República Portuguesa seria o mínimo que Portugal podia e deveria fazer em homenagem a tão grande figura.

Mas o mais adequado e prestigiante para a justiça portuguesa seria a nomeação de Isaltino Morais para o cargo de Procurador-geral da República. Agora que se escolheu o novo Procurador, foi pena que assim não tivesse acontecido.

Numa altura em que o Estado gasta milhões em longos processos que nada produzem e necessita desesperadamente de reduzir a despesa pública, seria um exemplo de boa gestão entregar o cargo a tão competente pessoa. Os resultados seguramente seriam os mesmos. Mas quando desaparecessem escutas ou outras provas dos processos, como no caso dos submarinos. Ou se continuasse a arquivar sistematicamente processos por falta de provas, de tempo ou dinheiro para as recolher. Ou quando não houvesse tempo em quatro ou cinco anos para convocar e fazer meias dúzia de perguntas ao Sócrates, como no caso Freeport, já ninguém estranharia. A culpa era do traquina do Isaltino!

Assim a culpa não morria invariavelmente solteira! E poupava-se muito dinheiro em investigações!

Os resultados seriam naturalmente os mesmos, mas pelos menos acabavam-se as nossas expectativas sobre tão triste e decepcionante justiça.

Alberto Almeida escreve de acordo com a antiga ortografia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ide roubar o caralho




Levem tudo. Mas levem tudo de uma vez! Não nos façam andar nesta morte lenta, de lápis na mão, a ver até quando ganharemos para comer. Acabe-se com este país de uma vez. Instaure-se definitivamente a escravatura. Escravizem-se os trabalhadores e dêem o que sobrar aos mercados. E já agora, custe o que custar acabe-se com a instituição família. Afinal para que servem as famílias? Façam-nas perder os empregos, os maridos, as esposas, os filhos, o lar e entregar a casa aos bancos. Afinal o que é isso comparado com o défice abaixo do 5%?

Não intervenham nos preços dos combustíveis, da energia, das telecomunicações e das portagens. Continuem antes a defender os accionistas da Galp, da Edp, da PT, da Brisa e Cª. Fechem-se as pequenas e médias empresas e despeçam-se os seus trabalhadores. Afinal para que é que elas servem comparadas com os grandes grupos económicos? Entregue-se isto a quarto ou cinco capitalistas chineses, árabes ou mesmos portugueses, desses que pagam os impostos na Holanda. Acabe-se com o emprego de uma vez. Institua-se o desemprego como valor nacional. Não se prendam por nós!

Acabem-se com os cursos superiores. Promovam-se os Relvas, os Varas, os Isaltinos e os Sócrates deste país. Acabe-se com o sistema nacional de saúde e com a educação. Privatize-se tudo!

Comprem-se mais submarinos e carros blindados para combater o povo nas ruas. Façam-se mais autoestradas, venda-se definitivamente o que resta da agricultura e das pescas. E já agora venda-se o mar à Alemanha e o céu aos chineses. Construam-se gigantescos freeport´s e paguem-se luvas… muitas luvas!

Aumente-se o número de deputados, de assessores e de outros boys. Comprem-se mais carros topos de gama para os ministérios, aumentem-se as regalias e os rendimentos desses finórios. Imponham-se sacrifícios, mas não a todos. Poupem-se os capitalistas dos offshores. Mas sobretudo não se esqueça de tributar os pobres!

Criem-se mais fundações e dêem-se-lhes mais uns milhões para que as grandes famílias aumentem os seus patrimónios.

Privatize-se tudo o que dê lucro. Aplique-se a cartilha neoliberal até não restar mais nada!

Promova-se ainda mais a promiscuidade entre deputados e grandes grupos privados. Aplique-se a TSU e dê-se milhões aos grandes grupos económicos instalados sem concorrência!

Promova-se uma justiça para  ricos e outra para pobres. Poupe-se à prisão essa quadrilha de ladrões que vive à custa dos partidos.

Roubem-nos tudo. E se ainda não estiverem satisfeitos, ide roubar para o caralho.

Mas fiquem descansados! Jamais nos roubarão a capacidade de sonhar!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O velho padre Gonçalves



Aquela hora e pouco parecia eterna. Era um suplício semanal. Vestido a rigor e impecavelmente penteado pela dona Ermesinda lá estava eu pronto para o sacrifício. De casaco de bombazina castanho claro, cor que jamais vesti, forrado com lã de ovelha, calças de terylene estilo boca-de-sino feitas por medida pelo senhor Adalberto, alfaiate em part time que caçava os fregueses no largo da aldeia aos domingos de manhã depois da missa. Nos pés calçava uns imponentes sapatos de tacão alto, a minha primeira manifestação histriónica, comprados na feira anual de Montemor-o-Velho, dois números acima, entupidos com papel de jornal para que o pé não dançasse demasiado. Lá estava eu imóvel a fazer de conta que ouvia o padre Daniel no seu indecifrável e aborrecido sermão. Assisti aquela provação domingos a fio! Depois veio o 25 de abril de 74 e os ventos foram-lhe desfavoráveis. Acabou expulso à forquilha por meia dúzia de comunistas de meia tigela lá da aldeia.
No lugar dele veio um padre cujo nome se me varreu da memória, lembro-me que usava uma prótese numa das pernas e viajava numa carripana de três rodas de habitáculo fechado. Não lhe achei a diferença e aqueles sermões continuavam com o mesmo espírito punitivo e castrador de sempre. Aquilo entrava por um ouvido a cem e a saia a duzentos pelo outro, pelo menos pensava eu! A única distracção verdadeiramente estimulante era a presença da Teté e da Bela, as raparigas mais bonitas da terra, pelas quais nutria o secreto desejo de me iniciar na arte dos amassos.
Um dia não houve missa! O padre capotou a carripana e ficou fechado de pernas para o ar, com a única porta trancada contra o asfalto. Saiu ileso. Foi uma felicidade. Para nós claro! Em menos de nada desaparecemos todos do adro da igreja, não fosse o gajo chegar a tempo.
Após o seu falecimento, anos mais tarde, veio um tal padre Gonçalves. Uma besta-quadrada que nos obrigava a estar em sentido durante a missa. Assumiu como primeira medida da sua gestão a proibição total de decotes e minissaias na igreja. Uma gestão danosa logo se vê!

Um dia, na festa anual em honra do nosso padroeiro, recusou celebrar a missa caso as mulheres da banda filarmónica teimassem em permanecer na igreja com aquelas minúsculas saias.

Como era possível ser tão estraga prazeres? Perguntava eu. O homem conseguiu acabar com a réstia de entusiasmo e instaurou de vez o seu discurso dogmático. Nós, ávidos de novas experiências, de novas descobertas, invadidos pelo formigueiro da adolescência, com os primeiros pelos a tentar furar a pele e levamos com um balde de água fria daqueles! Que tristeza.
A sexualidade foi a partir de então construída e vivenciada dentro de um forte aparato repressivo e castrador, sobre forte vigilância e influência dos dogmas e ensinamentos do padre Gonçalves, que atribuiu às práticas sexuais todos os males da humanidade, cumprindo aliás a velha tradição da sociedade judaico cristão. Para garantir que o pecado do prazer não se manifestaria ou se o fizessemos seria punido, o padre Gonçalves exigiu a confissão regular e pormenorizada, com o objectivo da punição e do doutrinamento, onde o menor desejo, o mais suave pensamento sexualizado, o gesto mesmo que subtil denotando algum prazer deveria ser por nós relatado e posterior firmemente punido.
Mas para grandes males grandes remédios e assim, atingido o ensino religioso obrigatório, pirei-me para nunca mais ser visto nas imediações. O padre Gonçalves parece que se reformou anos depois.
Regressei ocasionalmente, em épocas festivas, mas sempre de pé atrás, não fosse o padre Gonçalves reaparecer como um fantasma no cimo do altar, com as suas vestes brancas. A medo adoptei a atitude preventiva de me colocar discretamente junto à porta com um pé dentro e outro pronto a sair a qualquer momento caso o ambiente toldasse.
Desde há uns anos, noutra localidade, assisto ocasionalmente a alguns sermões do padre local. Ele tem tudo o que os outros tinham, mas em pior! Aquele discurso mórbido, negativo, culpabilizante e punitivo ganha agora uma profundidade nunca antes vista.
Vem isto a propósito de uma romaria que presenciei acidentalmente na província da Andaluzia, mais propriamente numa localidade chamava La Redondela, em honra da padroeira local.
Na procissão desfilavam mulheres, homens e crianças com trajes tradicionais da região. Algumas mulheres trajavam vestidos sevilhanos, longos brincos e flores no cabelo. Outras montavam cavalos, vestindo camisa branca, calças pretas justas, botas de couro e chapéus pretos. Os homens de camisa branca e calça preta de chapéu do mesmo género. Na mão homens e mulheres empunhavam garrafas e copos que bebiam debaixo daquele tórrido calor andaluz. No andor, transportado por uma parelha de cavalos, desfilava uma imponente imagem representando a santa protectora. O ambiente era notoriamente descontraído, festivo e as pessoas faziam questão de o não esconder.
Logo que recomecei a viajem veio-me à memória os tempos do velho padre Gonçalves e todas aquelas ideias com que nos formataram enquanto puderam. De repente pensei naquela romaria e estranhei algo. Faltava qualquer coisa naquele cenário. Aquela sensação arrastou-se ainda por um bom par de quilómetros, até que finalmente descobri – Faltava o padre! A procissão não tinha padre! Pensei! Os gajos livraram-se dele, não fosse o tipo proibi-los de beber e divertir-se durante a cerimónia!
Pensei naquela forma de expressar a fé e achei que a coisa podia funcionar. Senti-me contagiado por aquela alegria e sobretudo pela sensação de liberdade que aquele quadro inspirava.
Mas, uns quilómetros mais à frente, aquela sensação de bem-estar começou a dar lugar a uma progressiva inquietação  que desembocou num ténue sentimento de culpa.
Pensei, porra que merda ! Ah já sei… É o espirito do padre Gonçalves amartelar-me a consciência! Haja paciência!

sábado, 12 de maio de 2012

E Abril aqui tão perto...


Um português genuíno, além de coçar os tomates enquanto fala, cuspir no chão e deitar lixo pela janela do carro, tem ainda a particularidade de ser altamente sensível a três palavras, a saber: sexo, saldos e grátis. Cada uma destas palavras, ouvidas isoladamente ou agrupadas, entram por um gajo acima como foguetes, aceleram rumo à zona pré-história do cérebro e estampam-se contra os neurónios, despoletando uma explosão de irracionalidade, perdão de serotonina. Assim sendo, um gajo transforma-se num cavalo selvagem capaz de derrubar tudo o que nos apareça pela frente.
Foi assim no último 1º de Maio! Mal se ouviu falar na promoção de 50% do Pingo Doce, o mais pacífico dos mortais transformou-se rapidamente num híbrido metade homo sapiens metade australopiteco. E assim, qual guerreiro, selvagem, se apresentou na porta das lojas Pingo Doce pronto para o ataque.

Não admira pois que muitos tenham de lá saído com os queixos partidos pelo vizinho do bairro ou até mesmo do prédio. É compreensível. Lá porque até vivemos no mesmo bairro, jogamos cartas juntos e desabamos as injustiças da vida não significa que de vez enquando não se tenha de mostrar quem manda, principalmente quando nos tentam sacaniar com a última garrafa de whisky da prateleira! 
Os sindicatos coitados também ficaram a arder! Essa poderosa indústria sindical portuguesa dificilmente poderia imaginar um dia mais negro na sua história. A força mobilizadora dos sindicatos e dos trabalhadores, que no contexto actual tem sido quase nula, confrontou-se neste 1º de Maio com uma triste correria, não em direcção à luta, mas em direcção aos Pingo doce. O pior é que o pessoal depois de sair do Pingo Doce ficou em casa a comtemplar as pichinchas e cagou-se nas manifestaçõse do 1º de Maio!

Porra, logo num dia simbólico da luta dos trabalhadores, dia para celebrar as conquistas que os trabalhadores do mundo conseguiram após a industrialização, designadamente a jornada semanal das 40 horas de trabalho entre outros direitos e, transforma-se esta merda num espectáculo de consumismo, paradigma maior do capitalismo. É triste!
Para o ano apenas resta uma hipótese aos sindicatos, promover uma campanha que contenha as palavras sexo ou grátis. As duas juntas seria o ideal, que isto de lutar pelos nossos direitos poderia ser um pouco mais atractivo!

O capitalismo desregulado, esse ficou todo contente. Afinal percebeu que tem uma força tal que em dois sopros pulveriza os valores, as ideias e a réstia de romantismo Abrileiro que ainda habita em alguns de nós.

A crise também sorriu, entre outras coisas, esfrega as mãos por continuar a poder retirar direitos adquiridos e baixar os custos do trabalho em função de um capitalismo ávido de manter os seus níveis de lucro, independentemente do tempo que corre.

O grupo Jerónimo Martins, esse samaritano de Janeiro a Janeiro, também ficou contente. Afinal facturou 27 milhões e quem paga a promoção são os pobres dos produtores.
O que o grupo Jerónimo Martins nos comunicou neste último 1º de Maio foi que é omnipotente e poderoso face à insignificante força de um povo cada vez mais a pensar na barriga e menos nos ideais.
Omnipotente e poderoso face aos seus desprotegidos funcionários, a quem obriga a trabalhar. Omnipotente e poderoso face aos seus fornecedores, a quem obriga, sob coação, a suportar os custos de uma promoção decidida unilateralmente, numa cadeia comercial onde o grupo arrecada, em média, 50% do lucro sobre os produtos vendidos.

Omnipotente e poderoso porque protegido pelo um poder político fraco e promíscuo, incapaz de regular, impor limites ou proteger os valores essenciais de um país. Omnipotente e poderoso porque capaz de por à vista o pior de cada um de nós.

A campanha do Pingo doce é imoral pelo dia escolhido, demonstra por um lado o enorme poder de fogo deste capitalismo vigente e por outro que um povo amedrontado, com direitos e salários reduzidos, em risco de perder o emprego e em muitos casos no limiar da fome, torna-se acéfalo e abre mão facilmente dos seus valores, submetendo-se mansamente ao poder dos mais fortes.

O Pingo doce roubou o 1.º de Maio aos trabalhadores, aos sindicatos e à esquerda.

No dia do trabalhador em vez de, como é tradição, os telejornais abrirem com reportagens sobre a luta pelos direitos dos trabalhadores, abriram com estes a lutar pelo último pacote de donut´s na prateleira de um supermercado. Simbólico.
Prende-se ou mata-se o senhor Alexandre Soares? Não! Ele apenas navega nas águas calmas e com os ventos de feição deste capitalismo que os estados teimam em não regular!
Até quando?