quinta-feira, 15 de maio de 2014

AS ABELHAS ESTÃO A MORRER

As abelhas estão a morrer! Estima-se que entre 50% a 90% da população total das abelhas, dependendo das regiões do mundo, tenha já desaparecido. As causas deste desastre ainda não foram estabelecidas.

Esta epidemia, de amplitude e violência colossais, está a alastrar de colmeia em colmeia por todo o planeta. Milhares de milhões de abelhas deixam as suas colmeias para nunca mais voltar. Nenhum cadáver de abelha é encontrado nos terrenos circundantes. Em poucos anos, as abelhas têm vindo literalmente a desaparecer.

Nos EUA, estima-se que tenha já desaparecido1,5 milhões de colmeias (de um total de 2,4 milhões). Os americanos importam agora abelhas da Austrália para fazer a polinização dos gigantescos campos de amendoeiras da Califórnia. Este cenário é mais ou menos semelhante em todo o mundo. Esta síndrome foi baptizada como “fenómeno Mary Celeste”, a partir do nome do navio cuja tripulação desapareceu misteriosamente em 1872 sem deixar rasto.

Cerca de 80% das espécies de plantas precisam das abelhas para serem polinizadas. Sem elas, não há polinização, logo, não há frutos. Três quartos das culturas que alimentam a humanidade dependem delas.

Esta desordem das abelhas parece não ficar a dever-se a um factor em concreto, mas a todo um conjunto de factores nascidos com industrialização como os pesticidas, o stress e a multiplicação à escala mundial das ondas electromagnéticas que perturbam e destroem as suas defesas imunitárias.

Tal como os trabalhadores, as abelhas estão a ser vítimas do sistema capitalista e da economia de mercado neoliberal! Os mercados pressionam os apicultores e estes pressionam as suas abelhas a aumentar ainda mais o seu desempenho com menos condições. As abelhas tornaram-se trabalhadores escravizados e sobretudo, através dos cruzamentos genéticos, foram modificadas tornando-as mais produtivas e mais dóceis. Muitas já não picam sequer! São apenas uma máquina de fazer dinheiro a quem basta apertar um botão para pôr a funcionar sem qualquer tipo de reclamação.

O resultado está à vista. Na china milhares de trabalhadores fazem já a polinização manualmente das árvores de fruto elevados em escadotes, munidos com pequenos cotonetes e sacos de pólen comprado aos mercados ewspecializados, substituindo assim o pequeno insecto.

A Apis Melífera (abelha europeia) surgiu na terra 60 milhões de anos antes do homem e deve ter-se já arrependido de tal encontro! A verdade é que nunca precisaram do Homem para sobreviver e acabam agora por sucumbir à sua ganância. As abelhas melíferas parecem simplesmente ter desistido, lançaram a toalha ao tapete! Mandaram-nos passear!

 Mas, ironia do destino, aconteceu o impensável! A partir de um cruzamento realizado há uns anos num laboratório brasileiro entre abelhas africanas, conhecidas por abelhas assassinas, com a espécie Apis Melífera Europeia, conseguisse uma nova espécie, a que se chamou Abelha Africanizada. Vinte e nove enxames desta nova espécie fugiram e multiplicaram-se um ritmo elevado, espalhando-se por todo o mundo, inclusive na Europa!

Pois bem esta nova e futuramente dominante espécie é absolutamente intratável e tem agitado os mercados! O alarmismo tem sua razão de ser, já que a agressividade apresentada reduz drasticamente as capacidades humanas nas tarefas de manejo, da sua domesticação. Esta nova espécie está a pôr em causa um negócio de milhares de milhões. Os mercados estão em pânico!

Este é um dramático e simultaneamente belo exemplo da adaptação e da revolta das espécies à tentativa cega e gananciosa de domínio por parte do homem. O homem pode ter a ilusão do poder, de ter a faca e o queijo na mão, mas a natureza encarrega-se amiúde de o contrariar de forma clara e inequívoca. Repare-se na violência dos fenómenos atmosféricos e outros em que a mãe natureza lembra quem de facto manda nesta merda!

Mas o mais extraordinário fenómeno da natureza está para chegar. E chegará no dia em que, à semelhança das abelhas, homens escravizados por outros homens sem escrúpulos se cruzarem com uma outra espécie mais feroz e mais avessa a sistemas de dominação,  darão origem a uma nova espécie!

Nesse dia, este novo homem, nascido deste novo cruzamento, chamar-se-á africanizado, asiatizado, cruzado com ET´s ou outra merda qualquer, irá lançar o maior ajuste de contas da história da humanidade! A revolta do homem escravizado focar-se-á nos sistemas dominantes, nas economias de mercado neoliberais, nos mercados, na injusta distribuição dos recursos do planeta.

Este novo homem não usará smartfones, iphones, ipads ou outras tecnologias de ponta. Este novo homem não usará armas de guerra. Este novo homem não cederá a lóbis, ao poder do dinheiro ou outro qualquer poder. Este novo homem, geneticamente mais dotado, de falo em riste, fará justiça com as próprias mãos, de forma nua e crua!

Este novo homem já tarda!

“Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida", Albert Camus

















terça-feira, 22 de abril de 2014

Mas que grandes FDP

Talvez não houvesse melhor ideia para ilustrar o estado do país e simultaneamente celebrar o 40º aniversário do 25 de abril de 74 que esta coisa do sorteio dos carros. Estes grandes FDP tiveram uma ideia genial! Com o sorteio fiscal, finalmente todos os pobres irão pedir factura e acaba-se de vez com a evasão fiscal! Instala-se de vez a democracia! Quem é o pobretana que resiste à ideia de ter um carro topo de gama parado à porta? O dinheiro vai jorrar nos cofres do estado. É que os pobres estão cheios de dinheiro!

Já se sabia que este governo não era de modas e ao contrário de outros governos de outros países que perseguem os ricos, o nosso é especialista em caçar pobres. É uma ideia lógica! Em Portugal os pobres são já uma praga e portanto eles que pagam a crise - essa obra-prima de sucessivos desgovernos, BPP´s, BPN´s e afins. Para quê incomodar os ricos, coitados!

Por outro lado esta ideia instala oficialmente a animação na política nacional, ressentida do eclipse de Alberto João Jardim e do deputado também madeirense da vassoura e outros fanfarrões do género! O panorama andava cinzentão e nada melhor que um sorteio de carros topo de gama alemães para animar a malta!

A grande dúvida é a de saber quem seria a personagem ideal para apresentar o sorteio contra a evasão fiscal! A quem avance os nomes de Dias Loureiro, Duarte lima ou até o do próprio Oliveira e Costa, a comer umas sandes de couratos pelo meio. É que quando se trata de evasão fiscal a coisa tem que ser apresentada por alguém que domine a matéria!

Também concordo com a ideia da senhora presidente da Assembleia da República de arranjar patrocinadores para as comemorações do 25 de Abril. Acho muito bem que se privatize as comemorações. Aliás, não se entende como é que o país que privatizou tudo o que dava lucro, não tenha ainda privatizado as comemorações ou até a própria Assembleia da República. De facto Portugal é um país que sabe marcar a diferença – precisa de receitas, já que tem repetidos deficits anuais, mas privatiza tudo o que dá lucro e fica apenas com o que dá prejuízo! Parece que o capitalistas não gostam de coisas que deem prejuízo. Gostos!

De resto seria até de bom-tom que se privatizassem os próprios deputados. Há muito tempo que os senhores deputados deveriam ostentar na lapela do casaco uma placa publicitárias com a designação de quem de facto os patrocina, tipo o logotipo do BES, BPN, BIC ou mesmo uma farda ou coisa do género. Pelo menos assim ficava tudo muito mais claro! Peca por tardia esta grande ideia! De resto eles, coitados já estão em precária situação de semiprivatização, uma vez que não estão obrigados a qualquer regime de exclusividade e como tal têm de trabalhar de manhã à noite. De manhã na assembleia da república e à tarde nos grupos financeiros ou outros que com sacrifico representam. Recentemente até lhes fizeram uma grande maldade - o projecto de lei que defendia a sua exclusividade foi chumbado pelo PSD, CDS e, imagine-se pelo PS!

Mas voltando aos carros, como é que ninguém nunca se tinha lembrado disto? É que os poderes de um carro topo de gama eram por demais conhecidos. Eles facilitam negócios, ajudam a ganhar concursos, eles impressionam amigos e conhecidos, eles ajudam até a abrir muitos pares de pernas! Toda a gente sabia que aparecer num carro topo de gama na faculdade dava direito a mais umas quantas quecas! Já todos sabiam que o reconhecimento social do sucesso de uma vida de trabalho de um emigrante é proporcional à “bomba” que apresente na terra no mês de Agosto.

De uma forma geral qualquer cidadão é medido socialmente pelo carro que tem estacionado à porta de casa. Na admira pois que qualquer cidadão seja honesto, traficante, politico ou qualquer outro criminoso bem-sucedido queira exibir o seu topo de gama!
O carro topo de gama é assim uma montra e simultaneamente uma espécie de isco, de engodo nacional! Não se compreende como tivemos de esperar 40 anos para que o iluminado Pedro Passos tirasse este Coelho da cartola.

Não admira pois que a nossa actual classe politica veja num automóvel topo de gama o símbolo do sucesso, um poder mágico, mobilizador, disciplinador e até moralizador da sociedade portuguesa. É que para esta geração de governantes jotinhas ter um topo de gama é sinónimo de vingar na vida!

Naturalmente que o governo poderia oferecer outro tipo de recompensa, tipo atribuir caixas de viagra para ajudara resolver o problema da natalidade, ou umas bolsas de estudo para ajudar fixar no país os cérebros portugueses, abrir contas poupança, ou outra merda qualquer! Mas não era a mesma coisa. A paródia nacional exigia uma coisa em grande! Um sorteio de carros! Preocupados com a audiências estão já a SIC e a TVI, que resultou já na mega transferência do João Baião!

É que os nossos governantes são, como escreveu alguém sobre Rui Rio, uns grandes FDP – Fãs De Popós, portanto!

Abençoados!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Agora tudo ou nunca mais

Tenho uma perna mais curta! Sou assim uma espécie de triângulo escaleno andante ou um tripé de pernas irregulares mas firmes. Umas mais que as outras, é certo! Fiquei deprimido, como convém a um bom neurótico claro está. Para comemorar, inscrevi-me na corrida mais dura que alguma vez fizera - o Utax – Trail dos trilhos da Serra da Lousã! Era agora ou nunca mais! Uma prova de 42 km, serra acima, serra abaixo, um poderoso contraste entre beleza e dureza, capaz de nos provocar uma overdose de serotonina!

O Trail Serra da Lousã iniciou-se às 9h em Castanheira de Pêra, seguindo em direcção ao parque eólico na espinha da Serra da Lousã. Depois de percorrer cerca de 7 km no topo desta cumeada, descemos para as aldeias do Catarredor e Vaqueirinho, e daí para a Aldeia do Xisto do Talasnal, onde estava localizado o nosso primeiro abastecimento.

À saída do Talasnal, o percurso do trail desce por um trilho técnico até a uma levada de água, que segue ao longo de 800 m para depois encontrar o trilho de ligação à Aldeia do Xisto do Candal. Aos poucos abandona-se a aldeia e surge um novo trilho em direcção à Cerdeira (o abastecimento seguinte). A passagem por esta Aldeia do Xisto adivinha o fim desta longa subida e depois de um último esforço começam a avistar-se os aerogeradores de Vilarinho e por fim o Trevim, ponto mais alto da Serra da Lousã, com 1205 metros de altitude.

Do Trevim segue-se para Santo António da Neve, passando junto à Capela e aos Poços de Neve - Local de romaria e festa dos povos serranos, a capela e os poços de neve fazem-nos sonhar com tempos remotos em que o povo arduamente recolhia e armazenava a neve, transformando-a no gelo que na época estival seguia em carros de bois até ao Rio Zêzere ou rio Tejo e daí em barcos até à Casa da Neve, que há época detinha o estatuto de fornecedor da casa real e, em caso de o gelo ser abundante, estava autorizada a vende-lo para cafés e hotéis da cidade a oitenta reis o quilo.

Este é o ponto de partida de um trilho imperdível e cheio de história (o trilho do neveiro), que desce para o Coentral Grande, onde estava o último abastecimento da prova. Os últimos quilómetros apresentam um desnível suave ligando o Coentral às aldeias de Sarnadas e Pisões, com passagem pela Praia Fluvial do Poço do Corga, Torgal, e terminando em grande com a passagem pela Praia das Rocas e o sprint final, de gatas, até para a Praça da Notabilidade.

O problema foi que nos enfiamos num café a beber minis pretas a 10km do final da prova e nos esquecemos que os últimos quilómetros, sendo os mais suaves a nível do relevo, seriam os mais cruéis para umas pernas que já massacradas por cerca de 32 quilómetros. Mal engulo o primeiro trago de cerveja, o meu cérebro  festejou, entendendo que a prova tinha acabado. Paralisei. Cheguei à meta paralisado!

Claro está que no domingo estive de cama todo dia e na segunda-feira sentia-me "apenas" um pouco pior! Uma semana antes, preventivamente tinha comprado uma palmilha para enfiar na sapatilha da perna mais curta! Mas, por azar e na pressa do dia, confundi as pernas e acabei por correr mais de quarenta quilómetros com a palminha na sapatilha errada. Por isso diziam, nos postos de controle - Eh pá aquele gajo vai  a correr na diagonal! Eu, estúpido, ria-me a olhar para um parolo qualquer meio torcido que seguia a meu lado!

Seguiu-se uma mais que justificada ida ao endireita por sugestão sábia de um amigo.O homem era um mago claro está, bigode à Tonico Bastos, trinta anos de experiência, dos quais 15 no Japão ou na puta que o pariu e um basto curriculum que ocupava todas as paredes do consultório. Depois de me chamar doido por andar armado em parvo a correr, lá me mandou deitar numa marquesa tamanho XXL, onde, num estranho ritual ancestral, começou entre bufos e urros e revirar de olhos a puxar e repuxar todas as partes do corpo que conseguiu apanhar! Largou-me morto no chão e bastante mais aliviado… na carteira está claro! No dia seguinte recomeçaram as dores, acrescidas da dor de alma por ainda acreditar em endireitas e em estórias da carochinha!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Essa incubadora de secretários de estado

Para um jovem estudante ou recém-licenciado empreendedor, ambicioso, trabalhador e gosto por desafios, que sonhe ser astronauta, investigador, quadro de uma empresa tecnológica de topo ou até enfermeiro, Portugal não é um país recomendável! Nascer e viver em Portugal pode ser até, neste caso, um azar das caraças!

Na verdade para quem aspira fazer carreira nestas profissões, baseadas no mérito, seria melhor ter nascido nos EUA, Reino Unido ou em qualquer outro país civilizado, para não ter a maçada de emigrar, como acontece à nossa melhor massa cinzenta!

Em contrapartida, se um jovem sem grande jeito para o estudo, cábula, mas bem-nascido, esperto e ambicioso, quiser fazer carreira e fortuna como secretário de estado num governo da nação, se nasceu em Portugal, parabéns! Não poderia ter nascido em lugar mais acertado!

Portugal será, provavelmente, o melhor e o maior aviário de secretários de estado do mundo! Em nenhum outro país se acederá tão cedo e tão facilmente ao lugar! Temos cá, portanto, uma verdadeira incubadora de secretários de estado!

O secretário de estado português é jovem, com idade compreendida entre os 35 e 40 anos, bem falante, jotinha, nunca trabalhou fora da esfera de influência do partido, veste bem, é  bem-nascido e regra geral tem o futuro assegurado à partida. Se por um lado tem acesso aos centros de decisão e negociatas no governo, por outro goza de uma relativa obscuridade, vivendo na sombra dos ministros! Findo o mandato iniciará finalmente a sua carreira numas das muitas empresas dos interesses que superiormente protegeu! Fácil! Emigrar seria bem mais doloroso e sobretudo menos inteligente!

Existe um potencial secretário de estado em cada um de nós. O perfil está inscrito no adn dos portugueses, corre-nos nas veias! Somos o povo do mundo que mais gozo tem em enganar o estado, que é visto como um patrão rico, ingénuo, a quem é suposto tirar o mais possível para nós e para dar aos amigos.

Esta coisa de aldrabar o estado é um desporto nacional! Quantos empresários conhecem que não tenham fugido ao fisco? Quantos indivíduos conhecem que não tenham já aldrabado o estado?

Tomemos como exemplo e apenas como mais um exemplo, o modus operandi do típico funcionário público português - de meia-idade, já a fugir para o obeso, sedentário! Antes de sair de casa para a repartição apaga todas a luzes, desliga o aquecimento, o stand by dos electrodomésticos, percorre toda a casa certificando-se que não há uma única situação de desperdício, que a vida está cara e os tempos são de austeridade. Durante a viagem, sofre uma misteriosa metamorfose e quando chega ao serviço já não é a mesma pessoa. Parece possuído pelo diabo. No caso de ser mulher, a primeira coisa que faz é ligar a escalfeta! Certifica-se que ligou todos os outros equipamentos de aquecimento, todas a luzes, o rádio e finalmente vai tomar café descansada. Quando volta, arregaça a saia, abre as pernas e estaciona em cima da escalfeta até ficar da cor de um tomate maduro da ponta dos pés até às bordas da c… da cueca de gola alta! À hora de almoço, para rentabilizar o aquecimento, deixa tudo ligado!

Durante a viagem de regresso, nova metamorfose e, já em casa, reassume a personalidade poupadora, que a vida custa a todos!

Nas altas escolas de secretários de estado, a saber, as juventudes partidárias dos três maiores partido a filosofia é semelhante, reina a filosofia da usurpação do bem comum - aquilo que é nosso é nosso, o que é do estado é para colocar a mercê do interesse dos nossos amigos que a seu tempo a mim chegará!

Posto isto é vê-los a pulular como pipocas, jovens, bonitos, ricos e sobretudo sem curriculum ou experiencia que justifique tal cargo!

Sendo assim, Portugal não será o rei da chamada corrupção clássica, de sacos cheios de notas, mas somos seguramente os reis da corrupção sistémica, em que os interesses instalados mais facilmente inscrevem na lei e nas instancias reguladoras os seu desejos mais secretos!

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

ai…este nosso triste fado

Com o nosso país à beira de um segundo resgate e, se for o caso, provavelmente do abismo, os portugueses insistem, após quase 40 anos de democracia, em tentar reinventar o seu futuro e o do país insistindo na velha fórmula de sempre. Votar sempre nos mesmos partidos, nas mesmas caras, nos mesmos interesses e esperar milagrosamente que algo mude. É obra! E da difícil! Assim, o palco da política portuguesa mais não tem sido que uma porta giratória em que, à vez, os três maiores partidos e interesses associados esperam a sua oportunidade para se sentar à mesa do repasto!

O próximo dia 29 de Setembro promete, assim, mais do mesmo! Os portugueses, se não houver uma luz que os ilumine, irão votar no mesmos actores, nos mesmos vícios de governação e esperar pacientemente um milagre - resultados de governação diferentes! Basta lembrar que mais de 80% dos candidatos à liderança dos órgãos autárquicos são actuais presidentes ou vice-presidentes de camara. As fileiras partidárias e os seus cãos de fila estão mais cerradas que nunca e o espaço para a renovação é pouco mais que uma utopia. Assiste-se, na vida política portuguesa, à instauração de autênticas dinastias, em que filhos sucedem aos seus pais!

Insistir num tratamento que se revelou e revela ineficaz e esperar que o doente melhor parece ser a crença e a sina da maioria dos portugueses.

O Concelho de Miranda do Corvo não foge à regra. Com uma força politica instalada há 12 anos no poder e a fazer uso da máquina da governação no que ela tem de pior, com um PS amorfo, a apostar na algazarra mas deserto de ideias, um bloco de esquerda local abandonado à sua sorte, por uma improvável liderança bicéfala e uma CDU com uma candidata forte, com ideias e obra feita, que não vive da politica, mas acompanhada e apoiada por comunistas, daqueles que comem crianças ao pequeno-almoço, resta aos mirandenses votarem como sempre, nos mesmos actores políticos de sempre e esperar, sentados, que o milagre aconteça!

O cenário quotidiano da nossa democracia também não mudou muito nos últimos 40 anos. Um país em que as ilusões deram lugar inevitavelmente a desilusões! Um país de vendedores de sonhos virados pesadelo. Um país que recebeu milhares de milhões, mas que ficou mais pobre, mais longe dos seus parceiros europeus, mais fustigado pelo desemprego, com mais emprego precário, com uma carga fiscal absolutamente insustentável para as empresas e famílias, com menos justiça social e sem esperança no futuro. Um povo exausto que só não resigna, porque nunca resignou!

Um país de Swaps, de BPN´s, de BPP´s, de subvenções vitalícias, reformas precoces de cor dourada, de mordomias várias, de submarinos e outras “virtudes” do regime. Um país com uma classe política impreparada, em muitos casos medíocre, de abundante ambição, mas de escassa vergonha. Um país em que a justiça não funciona ou não quer funcionar. Um pais que não responsabiliza os seus políticos pelas suas políticas ruinosas e que, ao invés, os promove a altos cargos de gestão pública. Um país que gera ricos mas é incapaz de gerar riqueza! Um país em que a contratação de boys é uma lei e a realização de concursos feitos à medida para determinadas pessoas é uma ordem! Todos da cor, todos de confiança. Neste particular, o actual executivo camarário Mirandense fez escola!

Para substituir esta classe política de luxo, já envelhecida e justamente reformada, já se perfilam nas listas para os órgãos autárquicos os seus filhos. Gente predestinada, iluminados pela mão divina, que nalguns casos nunca geriu mais que mesadas. Alguns nunca trabalharam, outros nem sequer os seus cursos concluíram. Mas isso não tem mal, que a cultura vigente é de pouca exigência e escasso escrutínio! Aqui Miranda também dá cartas!

Um país de políticos de ocasião que em época de eleições ficam terrivelmente solidários, ultra sensíveis aos anseios das populações e preocupados com o bem comum, políticos que rasgam estradas e praças, pintam paredes, inauguram obras menores e grandiosas, publicam revistas do regime, lançam autocarros experimentais para a terceira idade em véspera de eleições, políticos que levam idosos à praia, aos santuários e até às urnas de voto. Políticos que gastam, em duas semanas, milhares  de euros numa programação artística  eleitoralista, irrealista, insustentável, de pura propaganda, enquanto as coleticvidades morrem entregues a si próprias.

Um país de autarcas que durante o restante mandato hibernam nas profundezas dos seus umbigos e dos seus interesses e esquecem quem os elegeu! Não deixa de ser estranho que políticos que prometem e não cumprem vejam quase sempre os seus mandatos renovados! Um país que teima em renovar mandatos ou eleger quem lhes mente, quem promete demais e cumpre de menos.

As eleições para os órgãos autárquicos deveriam centrar-se nas pessoas, na sua obra, no seu caracter, na sua participação cívica, na sua postura na vida e na política, na sua capacidade de trabalho, no seu dinamismo e capacidade empreendedora, na experiência de gestão de dinheiros próprios e públicos, na competência, na liberdade e independência face aos interesses instalados.

Olhem bem para as listas e avaliem as pessoas, olhem-lhes bem para a cara, tiram-lhes o pulso, meçam-lhes a competência, a experiência, a capacidade de trabalho e sobretudo o desprendimento aos lugares, ao poder pelo poder, à vaidade, aos interesses instalados e votem. Mas desta vez, por favor, não esperem um milagre! Façam diferente!


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Licença para Foder

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148



Sabe-se agora que o anúncio da mastectomia dupla realizada pela actiz Angelina Jolie pode fazer parte de uma campanha milionária paga por um grupo farmacêutico privado para “forçar” o Supremo Tribunal Federal dos EUA a autorizar a patente do gene BRCA1. Angeline Jolie poderá ser a "ponta da lança" da indústria farmacêutica para promover uma prática clínica a partir da análise da mutação de um gene patenteado por uma empresa privada com interesses milionários na área da saúde.
O grupo privado pretende ter a autorização para explorar em regime de exclusividade a investigação, exploração comercial e demais direitos sobre um gene do corpo humano!

Que a actriz venda à indústria farmacêutica o seu corpo é perfeitamente aceitável. Ela é uma entidade privada, livre e responsável pelas suas acções.  Mas o que importa aqui sublinhar é a legitimidade de um estado poder conceder a exploração comercial a privados de componentes do corpo humano e de recursos universais que deveriam ser "apenas" património da humanidade.

Um dia não me admiraria que uma multinacional qualquer patenteasse os tomates do Zé Camarinha para desenvolver um remédio para os chatos ou merda parecida!

Este ano a Comissão Europeia, que não tem mais nada que a preocupe, prepara-se para apresentar uma proposta oficial para uma Lei das Sementes, um projecto legislativo iniciado em 2008, que pretende regular a comercialização de sementes, com aplicação imediata em toda a União Europeia, sobrepondo-se às legislações nacionais, contrariamente às demais directivas europeias, que dão espaço de manobra aos países-membros.

Esta lei pretende ilegalizar todas as sementes que não sejam registadas nos Catálogos Nacionais de Variedades. Apenas exclui desta obrigação as sementes utilizadas na investigação ou em bancos oficiais de sementes e pretende proibir a troca informal e gratuita entre pessoas que não sejam criadores ou agricultores.

Mas afinal a quem pertencem as sementes? A toda a humanidade ou aos grupos económicos que as vão patentear? Não deixa de ser curioso que um património vegetal que evoliu livre e naturalmente durante milhões de anos, incluindo 10.000 anos de prática agrícola, sem nenhuma cataclismo, careça agora de ser “disciplinado e regulado” por meia dúzia de burocratas instalados na Comissão europeia! Estarão eles ao serviço das populações? Ou ao serviço dos grandes interesses instalados?

Esta proposta de lei constitui um ataque à agricultura de pequena escala, à agricultura de subsistência e às actividades de preservação de sementes tradicionais. Mesmo com a promessa de taxas de registo mais pequenas para a categoria de sementes chamada "tradicionais", os custos, que serão anuais, e as burocracias (inspecção no terreno, requisitos complexos para embalagens,..) a que a nova lei obriga, inviabilizariam a participação de pequenos “operadores” no mercado, mesmo quando não têm fins lucrativos! Isso significará o controle deste negócio pelos grandes operadores.

A nova lei para a comercialização de sementes vai efectivamente banir dezenas de milhares de variedades de sementes tradicionais e ameaça directamente a agro-biodiversidade do planeta, a agricultura de subsistência, a nossa soberania alimentar e até mesmo a nossa segurança alimentar. É a primeira legislação que se atreve a barrar o acesso a sementes para a produção local de alimentos. O pequeno agricultor, mesmo o mais pobre, ver-se-á obrigado a comprar as suas sementes no mercado, ano após ano, com o risco adicional de ver estes custos subir, devido à existência de oligopólios na produção de sementes comerciais.

Estes casos são apenas mais dois exemplos da ofensiva global dos grandes interesses económicos no sentido da apropriação e controle dos recursos do planeta para promoção do lucro fácil. Se pensarmos em todas as dificuldades e obstáculos colocados aos produtos da pequena produção local, facilmente chegaremos à conclusão que o propósito é a destruição dos produtores locais, dos mercados tradicionais e da agricultura de subsistência.

Curiosamente, enquanto as “policias” europeias tipo ASAE combatem ferozmente os pequenos produtores, as produções tradicionais e os mercados locais, grandes grupos económicos, nas suas barbas, misturam carne de vaca com carne de cavalo ou adulteram sabe-se lá mais o quê!

Portugal, por exemplo, transpôs para a legislação nacional mais de 90% das directivas relativas ao controle alimentar, mas apenas 10% das directivas produzidas para o combate à corrupção! É muito curioso e apenas mais um exemplo do curso dos acontecimentos.

Não nos admiremos pois, que um dia, patenteiem a água que bebemos, o ar que respiramos, o céu e o mar ou mesmo o Kamasutra, obrigando-nos a tirar licença para f*der. Não digam que eu não avisei!!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Há sempre coisas por detrás das coisas

Vivo num país que tem cerca de 1860 km de costa marítima e acesso como poucos aos recursos riquíssimos do mar. Vivo num país que tem em média 250 dias de sol por ano e condições únicas para uma oferta turística de excelência. Apesar de sermos geograficamente pequenos, temos uma das mais diversificadas e reconhecidas gastronomias do mundo. Vivo num pais que produz vinhos únicos.

Vivo num país que tem recursos geológicos, hídricos, biológicos e climáticos como poucos. Vivo num país que tem gente capaz, que quando emigra para países desenvolvidos se destaca dos demais pela sua capacidade de trabalho, adaptação e criatividade. Vivo num país de empreendedores, gente que deu o mundo a conhecer, gente que correu mundo à procura de melhores condições de vida. Vivo num país de gente pacifica, que conseguiu, apesar da instabilidade política e das dificuldades económicas decorrentes, consolidar uma democracia e viver em paz social. Vivo num país de gente jovem qualificada que dá cartas por esse mundo fora em universidades e empresas de ponta. Vivo num país tolerante, de brandos costumes. Vivo num país que recebeu diariamente durante quase 30 anos milhões de euros para se modernizar e ultrapassar assimetrias internas e face aos seus congéneres europeus. Vivo num país que teve fundos para se reformar e condições para que desenvolver e criar riqueza.

Mas também vivo num país que, após quase 30 anos de União Europeia (UE), milhões de fundos comunitários e uma década dentro do euro, uma das moedas mais poderosas do mundo, não foi capaz de fugir à cauda da europa. Vivo também num país que, apesar dos milhões em fundos comunitários, dois terços da população vive em regiões consideradas zonas pobres na Europa. Vivo num país que apostou no betão e no ferro em detrimento da educação. Vivo num país que construiu a maior redes de auto-estradas do mundo para “encurtar” o país e aumentar a competitividade das empresas. Vivo num país onde hoje as portagens cobradas empuram empresas para a falência todos os dias.

Vivo num país onde governantes negociam parcerias público-privadas (PPP´s) e poucos meses depois aparecem, como que por magia, nos conselhos de administração das empresas privadas com quem antes negociaram e concessionaram auto-estradas, pontes, barragens, hidroeléctricas, hospitais etc…Vivo num país que através de engenhosos contratos em forma de PPP´s o estado paga milhões aos grupos Melo´s, Espíritos santos’ e outros amigos de Portugal. Vivo num país que tem a carga fiscal, os preços da electricidade, combustíveis, telecomunicações, portagens mais caros da Europa. Vivo num país onde deputados da república trabalham simultaneamente em grupos privados sem que isso fira incompatibilidades. Vive num país onde o chefe das secretas pode vender informação classificada e transitar para a empresa a quem supostamente vendeu essa informação.

Vivo num país onde é possível interpor 44 recursos, pagar 144 mil euros em custas judiciais ao estado e evitar a prisão. Vive num país onde todos os conselhos directivos de organismos públicos mudam a cada ciclo político, ao ritmo da necessidade de emprego de cada nova levada de boys. Vivo num país onde a justiça não funciona. Vivo num país onde políticos criam universidades para licenciaturas tipo “tang”. Vivo num pais que acolhe criminosos nos seus governos. Vivo num pais onde governantes sem vergonha teimam em não se demitir. Vivo num país que tem uma autêntica indústria de licenciamentosonde um projecto de aquacultura, entre outros exemplos, demora em média 10 anos a ser licenciado. Vivo num pais que importa em contrapartida, entre outros exemplos, 70 mil toneladas por ano de pescado criado em regime de aquacultura. Vivo num pais pobre onde administradores públicos e políticos auferem remunerações e reformas douradas prematuras, entre outras regalias, muito acima dos mais ricos países europeus. Vive num país que foi capaz de criar ricos mas não riqueza.

Vivo num país que já esteve na cauda da europa a 12 membros, a 15, a 17 e prepara-se agora, para ficar também no fim da União Europeia a 27 membros. Vivo num país surreal, onde parece sempre haver coisas por detrás das coisas!