quinta-feira, 23 de maio de 2013

Licença para Foder

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»

José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pag. 148



Sabe-se agora que o anúncio da mastectomia dupla realizada pela actiz Angelina Jolie pode fazer parte de uma campanha milionária paga por um grupo farmacêutico privado para “forçar” o Supremo Tribunal Federal dos EUA a autorizar a patente do gene BRCA1. Angeline Jolie poderá ser a "ponta da lança" da indústria farmacêutica para promover uma prática clínica a partir da análise da mutação de um gene patenteado por uma empresa privada com interesses milionários na área da saúde.
O grupo privado pretende ter a autorização para explorar em regime de exclusividade a investigação, exploração comercial e demais direitos sobre um gene do corpo humano!

Que a actriz venda à indústria farmacêutica o seu corpo é perfeitamente aceitável. Ela é uma entidade privada, livre e responsável pelas suas acções.  Mas o que importa aqui sublinhar é a legitimidade de um estado poder conceder a exploração comercial a privados de componentes do corpo humano e de recursos universais que deveriam ser "apenas" património da humanidade.

Um dia não me admiraria que uma multinacional qualquer patenteasse os tomates do Zé Camarinha para desenvolver um remédio para os chatos ou merda parecida!

Este ano a Comissão Europeia, que não tem mais nada que a preocupe, prepara-se para apresentar uma proposta oficial para uma Lei das Sementes, um projecto legislativo iniciado em 2008, que pretende regular a comercialização de sementes, com aplicação imediata em toda a União Europeia, sobrepondo-se às legislações nacionais, contrariamente às demais directivas europeias, que dão espaço de manobra aos países-membros.

Esta lei pretende ilegalizar todas as sementes que não sejam registadas nos Catálogos Nacionais de Variedades. Apenas exclui desta obrigação as sementes utilizadas na investigação ou em bancos oficiais de sementes e pretende proibir a troca informal e gratuita entre pessoas que não sejam criadores ou agricultores.

Mas afinal a quem pertencem as sementes? A toda a humanidade ou aos grupos económicos que as vão patentear? Não deixa de ser curioso que um património vegetal que evoliu livre e naturalmente durante milhões de anos, incluindo 10.000 anos de prática agrícola, sem nenhuma cataclismo, careça agora de ser “disciplinado e regulado” por meia dúzia de burocratas instalados na Comissão europeia! Estarão eles ao serviço das populações? Ou ao serviço dos grandes interesses instalados?

Esta proposta de lei constitui um ataque à agricultura de pequena escala, à agricultura de subsistência e às actividades de preservação de sementes tradicionais. Mesmo com a promessa de taxas de registo mais pequenas para a categoria de sementes chamada "tradicionais", os custos, que serão anuais, e as burocracias (inspecção no terreno, requisitos complexos para embalagens,..) a que a nova lei obriga, inviabilizariam a participação de pequenos “operadores” no mercado, mesmo quando não têm fins lucrativos! Isso significará o controle deste negócio pelos grandes operadores.

A nova lei para a comercialização de sementes vai efectivamente banir dezenas de milhares de variedades de sementes tradicionais e ameaça directamente a agro-biodiversidade do planeta, a agricultura de subsistência, a nossa soberania alimentar e até mesmo a nossa segurança alimentar. É a primeira legislação que se atreve a barrar o acesso a sementes para a produção local de alimentos. O pequeno agricultor, mesmo o mais pobre, ver-se-á obrigado a comprar as suas sementes no mercado, ano após ano, com o risco adicional de ver estes custos subir, devido à existência de oligopólios na produção de sementes comerciais.

Estes casos são apenas mais dois exemplos da ofensiva global dos grandes interesses económicos no sentido da apropriação e controle dos recursos do planeta para promoção do lucro fácil. Se pensarmos em todas as dificuldades e obstáculos colocados aos produtos da pequena produção local, facilmente chegaremos à conclusão que o propósito é a destruição dos produtores locais, dos mercados tradicionais e da agricultura de subsistência.

Curiosamente, enquanto as “policias” europeias tipo ASAE combatem ferozmente os pequenos produtores, as produções tradicionais e os mercados locais, grandes grupos económicos, nas suas barbas, misturam carne de vaca com carne de cavalo ou adulteram sabe-se lá mais o quê!

Portugal, por exemplo, transpôs para a legislação nacional mais de 90% das directivas relativas ao controle alimentar, mas apenas 10% das directivas produzidas para o combate à corrupção! É muito curioso e apenas mais um exemplo do curso dos acontecimentos.

Não nos admiremos pois, que um dia, patenteiem a água que bebemos, o ar que respiramos, o céu e o mar ou mesmo o Kamasutra, obrigando-nos a tirar licença para f*der. Não digam que eu não avisei!!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Há sempre coisas por detrás das coisas

Vivo num país que tem cerca de 1860 km de costa marítima e acesso como poucos aos recursos riquíssimos do mar. Vivo num país que tem em média 250 dias de sol por ano e condições únicas para uma oferta turística de excelência. Apesar de sermos geograficamente pequenos, temos uma das mais diversificadas e reconhecidas gastronomias do mundo. Vivo num pais que produz vinhos únicos.

Vivo num país que tem recursos geológicos, hídricos, biológicos e climáticos como poucos. Vivo num país que tem gente capaz, que quando emigra para países desenvolvidos se destaca dos demais pela sua capacidade de trabalho, adaptação e criatividade. Vivo num país de empreendedores, gente que deu o mundo a conhecer, gente que correu mundo à procura de melhores condições de vida. Vivo num país de gente pacifica, que conseguiu, apesar da instabilidade política e das dificuldades económicas decorrentes, consolidar uma democracia e viver em paz social. Vivo num país de gente jovem qualificada que dá cartas por esse mundo fora em universidades e empresas de ponta. Vivo num país tolerante, de brandos costumes. Vivo num país que recebeu diariamente durante quase 30 anos milhões de euros para se modernizar e ultrapassar assimetrias internas e face aos seus congéneres europeus. Vivo num país que teve fundos para se reformar e condições para que desenvolver e criar riqueza.

Mas também vivo num país que, após quase 30 anos de União Europeia (UE), milhões de fundos comunitários e uma década dentro do euro, uma das moedas mais poderosas do mundo, não foi capaz de fugir à cauda da europa. Vivo também num país que, apesar dos milhões em fundos comunitários, dois terços da população vive em regiões consideradas zonas pobres na Europa. Vivo num país que apostou no betão e no ferro em detrimento da educação. Vivo num país que construiu a maior redes de auto-estradas do mundo para “encurtar” o país e aumentar a competitividade das empresas. Vivo num país onde hoje as portagens cobradas empuram empresas para a falência todos os dias.

Vivo num país onde governantes negociam parcerias público-privadas (PPP´s) e poucos meses depois aparecem, como que por magia, nos conselhos de administração das empresas privadas com quem antes negociaram e concessionaram auto-estradas, pontes, barragens, hidroeléctricas, hospitais etc…Vivo num país que através de engenhosos contratos em forma de PPP´s o estado paga milhões aos grupos Melo´s, Espíritos santos’ e outros amigos de Portugal. Vivo num país que tem a carga fiscal, os preços da electricidade, combustíveis, telecomunicações, portagens mais caros da Europa. Vivo num país onde deputados da república trabalham simultaneamente em grupos privados sem que isso fira incompatibilidades. Vive num país onde o chefe das secretas pode vender informação classificada e transitar para a empresa a quem supostamente vendeu essa informação.

Vivo num país onde é possível interpor 44 recursos, pagar 144 mil euros em custas judiciais ao estado e evitar a prisão. Vive num país onde todos os conselhos directivos de organismos públicos mudam a cada ciclo político, ao ritmo da necessidade de emprego de cada nova levada de boys. Vivo num país onde a justiça não funciona. Vivo num país onde políticos criam universidades para licenciaturas tipo “tang”. Vivo num pais que acolhe criminosos nos seus governos. Vivo num pais onde governantes sem vergonha teimam em não se demitir. Vivo num país que tem uma autêntica indústria de licenciamentosonde um projecto de aquacultura, entre outros exemplos, demora em média 10 anos a ser licenciado. Vivo num pais que importa em contrapartida, entre outros exemplos, 70 mil toneladas por ano de pescado criado em regime de aquacultura. Vivo num pais pobre onde administradores públicos e políticos auferem remunerações e reformas douradas prematuras, entre outras regalias, muito acima dos mais ricos países europeus. Vive num país que foi capaz de criar ricos mas não riqueza.

Vivo num país que já esteve na cauda da europa a 12 membros, a 15, a 17 e prepara-se agora, para ficar também no fim da União Europeia a 27 membros. Vivo num país surreal, onde parece sempre haver coisas por detrás das coisas!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

mais platão e menos prozac


Foto: Parece que sim...
A imagem que aqui colo, sugere que existem dois tipos de pessoas, a saber: as que pensam pela sua própria cabeça e as que pensam pela cabeça dos outros. Será assim? Não. Penso que existe ainda um outro tipo, este do género masculino, o grupo dos que não pensam de todo, se exceptuarmos os pensamentos com a cabeça da piç*! No meu serviço aparecem muitos gajos desses!
 
- Engravidei a patrõa outra vez ó doutor!”
- Então porquê?
 
- Aconteceu! Foi um descuido!
 
- Usaram métodos contraceptivos? Você trabalha? Tem condição para criar um filho?
 
- Isso é que não! Isto está mau! Os gajos da segurança Social não apoiam?
- Claro que apoiam! Esteja descansado! Você fo*a à vontade que a gente paga com os nossos impostos! Não se acanhe!
  


Claro está que estes gajos só dão prejuízo ao país! Mas a culpa será só deles?  A responsabilidade é antes de mais do método tradicional de ensino português baseado no ensino fechado dos conteúdos, sem lugar à formação de espíritos críticos e criativos, sem lugar para o aluno atuar, agir ou reagir de forma individual. O abuso das aulas expositivas, com muita teoria e exercícios sistematizados para a memorização, criou uma legião particular de não pensantes! A permissão do uso de máquinas calculadoras na aulas, o facilitismo e as novas oportunidade Socráticas foram a cereja no topo do bolo! Claro que isto convém aos governantes, eles próprios pouco preparados, exceptuando o Relvas, e em muitos casos pouco pensantes.
Esta legião de não pensantes engrossa a cada dia que passa. Um dia destes só temos que nos preocupar com a alimentação e o sexo, como no tempo das cavernas aliás! Os poucos que vão conseguir conservar os seus empregos ganharão apenas para pagar impostos e para algumas despesas correntes. Os desempregados viverão da caridade, lutando apenas para não morrer. Admirável mundo novo este. Para que é que é preciso pensar?
Para o regime está tudo perfeito. Desde que o pessoal trabalhe, pague impostos, vote para garantir a alternância  partidária e morra à porta da reforma, corre tudo bem.
 
E para que não haja dúvidas, o regime instituído contrata, meia dúzia de gajos iluminados, pagos a peso de ouro para nos esclarecerem e basicamente pensar por nós. O resto, com as necessárias excepções, resume-se uma gigantesca legião de carneiros não pensantes que se limitam a seguir a corrente!
Pensar dá um trabalho do caraças e já não se justifica! Ao domingo, por exemplo, um homem só tem de pensar em comer! Não temos de pensar de todo. O dia não se presta sequer a grandes movimentos intelectuais. Ressacados da noite da véspera, só temos que esperar pelo jornal da TVI e absorver os pensamentos do Prof. Marcelo. Aquilo são injecções de pensamento que dão para a semana toda. Até os livros e discos que um gajo deve ler e ouvir ele aconselha.
 
E se um gajo tiver a sorte de se interessar por futebol temos, no final da noite de domingo,  o grande comentador pensante Rui Santos na SIC-Noticias, que acaba com qualquer dúvida futebolística ou nebulosidade do sistema. No resto da semana desfilam muitos outros fazedores de opinião. Para quê um gajo partir os neurónios se temos estes gajos que nos fazem a papa toda! Só temos que nos deitar de papo para o ar e entre duas ressonadelas absorver a coisa!
Enfim, não admira então que o Passos Coelho e Victor Gaspar nos digam “ austeridade ou a morte”. Estão claramente a apostar na nossa incapacidade de pensar alternativas.
O que eles nunca nos disseram, foi que as quatro medidas mais gravosas aplicadas no Orçamento do Estado 2012, nem sequer estavam no memorando. Eles, armados em alunos superdotados, quiseram ir mais depressa, quiseram fazer um justamente em tempo recorde e o resultado de tanta inteligência está bem à vista – acabaram de afundar o barco. Agora, claro está, o buraco é muito maior e portanto mais austeridade ou morte. Abençoados!
 
Esta legião de gente pouco habituada a pensar anda por ai à solta e é perigosa! Um dos sítios mais perigosos é o facebook! Eles andam por lá aos montes!
Como lá não é necessário pensar, basta postar lá umas frases inteligentes do Óscar Wilde, do Gandhy ou madre Teresa de Calcutá, colar umas fotografias de uns gatos a espreguiçarem-se e já está. Se um gajo for mais exibicionistas cola umas fotos de umas férias em Palma de Maiorca ou em Biarritz e transforma-se imediatamente numa pessoa bué de interessante!
 
Há tempos uma rapariga entupia-me diariamente a página com frases feitas de pessoas famosas. A coisa mais pessoal que colou em meses foi a seguinte frase: “tou mais pra lá que pra cá. Vou pra caminha”. As pessoas atacaram logo desenfreadas o botão do like e cilindraram-na com 45 gostos!  Não é caso para menos, um gajo lê aquela merda e fica com os neurónios aos saltos. A coisa mais inteligente que colou lá foi uma foto em cuecas e soutien. Um gajo gosta sempre de ver um bom traseiro e umas boas mamas. Eliminei-a!
Outros mais virados para a lavoura, para além de pensarem pouco parece não quererem fazer nenhum. Dedicam-se à produção de legumes e à pecuária no farmeville. Bem pensado, o país agradece e aquilo é pouco atacado por pragas e ervas infestantes! Até o Cavaco Silva tem lá uma horta e talvez por isso acordou e descobriu agora que temos que voltar à terra e ao mar.
 
Recebo centenas de convites de jovens agricultores para adquirir a minha parcela de terreno no farmeville. Respondo sempre que já tenho o meu bocado de terra atrás da minha habitação e digo sempre que podem aparecer para me ajudar a plantar uns tomateiros e umas alfaces. Ninguém aparece! Às tantas a enxada do facebook não faz tantos calos. Mas nem sabem o que perdem! Onde é que no farmeville se encerra uma tarde de trabalho com uma punheta de bacalhau e um espumante bruto natural? Ah pois é!
O facebook é uma máquina de empacotar pessoas. Um gajo mete para lá uns likes numas merdas e eles traçam-nos o perfil. Aqui há tempos descobri que pertencia lá a uns quantos grupos que nem fazia ideia que existiam. Fiquei a saber que já pertenço aos grupos: I have a power, Apoiante da medicina, O apeadeiro de Baco, Grupo dos que levam bucha para o emprego, Grupo dos que usam navalha pró petisco” entres outros. Os gajos vendem esta informação toda às multinacionais, acreditem!
 
Mas o facebook tem coisas mais estranhas. Um dia uma amiga partilhava a dor de ter perdido o pai. Levou logo com dezenas de likes! Afinal as pessoas gostaram do quê? Que o homem tivesse morrido? Da dor? Ninguém sabe!
O pessoal deixou-se ir! Imaginem que me convidaram para um jantar de natal em que a cozinheira de serviço se chama bimby. Logo eu que cura as minhas depressões no fogão a saltear legumes na frigideira! Perguntei logo se a gaja também fazia broc**s! Parece que não! Aquilo faz tudo menos isso. Ninguém pensa em nada!
 
Esta alienação vai acabar por nos matar a todos. Acreditem!
Este texto é mera ficção, ainda que, aqui e ali, enriquecido por factos reais. A referência a sexo e palavrões não era de todo necessária. Mas eu assumo o risco!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A nobre arte de não usar carteira

Em Portugal, como noutros países de sangue quente, solarengos e de tendência esbanjadora e corrupta, o melhor indicador do sucesso pessoal de uma figura pública é a sua necessidade de usar um simples e banal objecto - A carteira de bolso.  Ah! Pensava que o sucesso pessoal de um político neste país se mede pela excelência do desempenho, pelos resultados alcançados, pela capacidade de liderança ou pela inteligência e sentido estratégico das decisões tomadas em proveito de todos? Nada disso, está enganado!

Neste país ocupar um lugar público, antes de mais, é uma oportunidade! Uma oportunidade de juntar um bom pé de meia, assegurar uns tachos e umas negociatas para familiares e amigos e sobretudo, traficando influências, realizar uns quantos bons negócios, que permitam engrossar substancialmente o  património pessoal.

Por exemplo, o Mário Soares, esse bonacheirão, esse porreiraço, não usa carteira há mais de 50 anos! Com certeza já nem sabe o que isso é. Desde os tempos do exílio dourado em S. Tomé e Paris até às benesses concebidas pelo nosso generoso regime democrático, nunca foi visto a pagar fosse o que fosse com a sua própria carteira. Um homem de sucesso portanto! Mas esse é um porreiraço e agente a gajos porreiros tudo perdoa!

O professor Cavaco Silva, não sendo político, como tanto gosta de sublinhar, (afinal o tipo é o quê? Ninguém sabe!) também não usa carteira desde o dia em que foi fazer aquela famosa rodagem do carro à Figueira da Foz em 1985 e o obrigaram a tomar conta do partido. Também nunca mais comprou carro, meteu gasolina, pagou portagens ou outras dessas merdas que gajos sem estilo como eu têm que pagar todos os dias. Agora, há quem afirme que vive em estado de hibernação lá para os lados de Belém. Acredita-se que envia de tempos a tempos uns sinais de fumo através do facebook! Mas nós perdoamos, o gajo tem cara de sério! E a gajos com cara de sério nós perdoamos tudo!

Outro homem de sucesso é o maestro Miguel Graça Moura, agora acusado injustamente pelo Ministério Público de se ter apropriado indevidamente de 720 mil euros de dinheiros públicos para fins pessoais quando estava à frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa. É acusado, entre outros factos, imagine-se, de ter gasto 720 mil euros de dinheiros públicos em artigos de lingerie masculina e feminina, em compras em supermercado, vinhos, charutos, joias, viagens e obras de arte. O homem é um bon vivant claro está. Os vinhos e os charutos são coisas banais, agora aquela coisa da lingerie, porra, é de estilo. Até aposto que comprou também viagra, algemas e chicotes e uma bisnaga de vaselina com o nosso triste dinheiro! É de artista! Mas os artistas são excêntricos, nós achamos graça e aos artistas tudo perdoamos!

Ao Dr. Jardim, outro que nunca usou carteira, nós também perdoamos tudo. O homem é um fanfarrão, um bem-disposto, um sedutor. A agente a esse tipo até paga de bom grado os charutos, umas caixas de o whisky, viagra, quecas, até aos os ajudantes para o carregar para cima da puta. Da puta que o pariu, que ele é um querido!

O Relvas é outro exemplo de político bem-sucedido. Mas é um esforçado, um lutador! Inscreveu-se pela primeira vez no ensino superior em 1984, no curso de Direito da Universidade Livre, uma instituição privada. Foi sempre um trabalhador, um trabalhador-estudante. Em 1985 concluiu, após frequência escrita e prova oral, a disciplina de Ciência Política e Direito Constitucional, com a classificação de 10 valores. Esse feito lançou-o para a vida!

Em Setembro desse ano pediu transferência para o curso de História, ainda na Universidade Livre. Matriculou-se em sete disciplinas, mas não fez nenhuma. Deputado à Assembleia da República, entre 1985 e 2009, presidente da Assembleia Municipal de Tomar, entre 1997 e 2012. O resto da história já vocês sabem!

Nunca foi visto a pagar nada do seu bolso. Até a conta do telemóvel,  cerca de 400€ mês, foi paga até 2012 pela Assembleia Municipal de Tomar. Hoje é paga pelo estado central claro está! Recebe ainda subsídio de deslocação por supostamente viver em Tomar e trabalhar em Lisboa. Actualmente está merecidamente reformado. Mas continua a trabalhar. É um exemplo para os nossos filhos!

Mas nem todos os países tratam assim pomposamente os sacrificados representantes dos órgãos do estado. A Austrália por exemplo tem cinco vezes mais população e apenas metade dos deputados. São democracias mais fracas claro está!

Na Suécia, os deputados não têm privilégios ou mordomias especiais. Os seus cargos são vistos como uma missão pública. Se quiserem viver no centro de Estocolmo, por exemplo, vivem em pequenos apartamentos, não têm empregados ou motoristas e chegam até a partilhar a cozinha. Os deputados ingleses, esses palermas, usam transportes públicos e pagam tudo do seu próprio bolso, excepto viagens em serviço. Mas claro, a Inglaterra é um país sem a nossa cultura democrática!

Em Portugal não! Se um secretário de estado for a uma vila inaugurar uma  rotunda, aparecem lá seis carros topo de gama, doze motoristas e cada carro transporta ainda mais quatro gajos de óculos escuros, bem vestidos e ar de lambe botas. Todos sem carteira!

Também é verdade que os nossos políticos jamais poderiam descolar-se em transporte públicos. Somos os campeões europeus em rede de auto-estradas, com uma média de 176m de auto-estrada por mil habitantes, mas não temos um Plano Ferroviário Nacional. A rede ferroviária não tem merecido um tal estatuto, tendo inclusive fechado massivamente linhas históricas em Portugal, como o ramal da Lousã, por exemplo, muitas delas para além da mais valia para as populações locais, eram verdadeiros ex-líbris em termos turísticos.

Mas isso é um pormenor comparado com a imponencia do projecto do TGV!!! Um gajo ia de TGV até ao porto e depois viajava de burro pelas aldeias remotas do alto douro. Pena terem acabado com esse magestoso projecto! Mas isso é outro assunto!

Um gajo anda aqui só a ver passar os comboios. A primeira coisa que eu faço logo que me levanto é enfiar a carteira no bolso, não vá precisar dela no caminho até à casa de banho. Já outros, precisam dela até para se deitar e ter uma noite agradável. Enfim, estatutos!

São milhares as figuras que não usam carteira em Portugal, entre deputados, membros do governo, assessores, secretários, motoristas, entre outros oportunistas. Só o nosso primeiro ministro tem dez motoristas em permanencia ao seu exclusivo serviço!

Agora vocês dizem-me: - Sim, é verdade, mas não é por aqui que o país se afunda. Ao que eu repondo: - Não só, mas também é por aqui.
- Mas um país que pede tamanho sacrifício aos seus concidadãos tem o dever moral de começar a cortar por cima, pelo número de deputados, ministros, secretários de estado, assessores, motoristas, secretários, privilégios e mordomias ilegítimas. É simbólico? É, mas uma democracia também se faz de coisas simbólicas!

Por isso neste natal, simbolicamente, vamos oferecer uma carteira ou porta-moedas a cada um dos nossos governantes!
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Psicodrama Moreniano - Parte 2

 Júlia tem 38 anos, é casada e mãe de dois filhos já adolescentes. Casou cedo com o primeiro e único namorado. Foi sempre muito “agarrada” à sua mãe, que perdeu há mais ou menos um ano. Apesar de todo o seu afecto pela sua progenitora, nunca lhe tinha dito em vida o quanto a amava. Júlia era uma mulher defendida e fechada nos afectos. Uma linguagem que dominava mal. No dia da morte da mãe encontrava-se fora em trabalho e não tivera oportunidade de se despedir ou sequer tempo para um último beijo em vida!
O seu casamento já vivera melhores dias, suspeitava inclusivé que o seu companheiro pudesse ter uma relação extraconjugal. Os filhos, absorvidos pelas suas carreiras académicas e profissionais, pouco tempo passavam em casa.
Júlia deprimiu. Deprimiu gravemente, apresentava um discurso vazio, sem projectos ou sentido de vida consistentes e sobretudo uma recorrente ideação suicida, valorizada pela equipa terapêutica, que se arrastou por algumas semanas. Júlia nunca o disse claramente, mas alimentava o secreto desejo de se juntar à sua mãe.
A equipa terapêutica perante o diagnóstico e sobretudo pela reserva do prognóstico, manteve-se vigilante e foi ao longo das sessões dando suporte à paciente.
Algumas sessões mais tarde o director, quando sentiu que Júlia estava emocionalmente mais preparada propôs-lhe duas dramatizações:
Numa primeira sessão pediu-lhe que dramatizasse no cenário (palco) uma última conversa com a mãe. Júlia escolheu o elemento feminino mais velho do grupo, que fez de sua mãe e iniciou-se o diálogo, com recurso à técnica de inversão de papéis.
 A Júlia pode dizer à mãe tudo o que sentia e tudo o que tinha ficado por dizer. Já no lugar da mãe, disse o que pensava que a mãe diria. A conversa teve uma enorme intensidade emocional. Júlia pode despedir-se finalmente da mãe.
Numa segunda sessão, atendendo à ideia recorrente de suicídio de Júlia, o director propõe-lhe que se realizasse o seu próprio velório. Já que ela queria tanto morrer!
Ela simbolicamente morta, deitada no palco, cheia de flores por cima e coberta com um manto de seda preto (parte dos materiais obrigatórios), ouviu durante alguns minutos os outros elementos do grupo (egos auxiliares) nos papéis do pai, do marido e dos dois filhos, dizerem frases chave, devidamente instruídos pelos egos profissionais e director.
Depois de muitas provocações, o ego auxiliar que representava o papel da filha grita: “Como foste capaz, sua cobarde! Como pudeste deixar-me sem mãe! Gosto tanto de ti! Precisava tanto de ti!
De súbito, Júlia dá um salto e grita “ Merda, merda eu não quero morrer! A ideação suicida parou.
 
O psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno, foi o criador do Psicodrama e do Sociodrama. Moreno nasceu em Bucareste, na Roménia em 1889 e faleceu nos EUA em 1974. Contemporâneo de Freud, do qual cedo se demarcou ideologicamente, foi um exemplo de criatividade e dedicação à investigação psicológica e social, deixando uma obra escrita reconhecida e um movimento psicodramático fortemente implantado nos EUA, América do Sul e Europa. Moreno propôs uma especie de fusão entre o teatro espontâneo e a psicologia.

O psicodrama é uma terapia individual, realizada em grupo, que através de uma teoria, de instrumentos e técnicas específicas permite aos pacientes dramatizar (dar movimento, dar vida) ao seu mundo interno num cenário (palco). Não se tratando de teatro, porque aqui o protagonista representa os seus próprios papéis, é possível por à “luz do dia”, as suas angústias, medos, frustrações, fantasias etc…
A sessão de psicodrama tem três fases. A primeira comporta dois momentos, o aquecimento inespecífico, na qual o director procura seleccionar o protagonista e o aquecimento específico, em que o director se foca já sobre o elemento que vai dramatizar. Segue-se então a dramatização em que o director convida o protagonista a subir ao cenário, procurando que ele reconstitua nesse espaço todo o contexto da sua vivência, tornando-a assim visualizável.
Na última fase fazem-se os comentários. Tal como o público, no teatro ou na vida, comenta o desempenho dos protagonistas, no psicodrama também o auditório se vai pronunciar sobre a dramatização, dando informações para uso futuro do protagonista. O grupo é ele próprio um agente terapêutico. Seguem-se os comentários dos egos profissionais e por fim o do director, a quem cabe encerrar a sessão.
A acção terapêutica do psicodrama resulta, em grande parte, do jogo entre protagonista e egos auxiliares que decorre durante a dramatização. Porém para que isso possa acontecer, o psicodrama dispõe de um certo número de técnicas. As principais são a inversão de papéis, solilóquio, interpolação de resistências, técnica de espelho, duplo, representação simbólica, objecto intermediário e estátua. São técnicas secundárias a auto-apresentação, Átomo social, role playing e jogos dramáticos.
 
Na lápide de Moreno está inscrito “ Aqui jaz o homem que trouxe a alegria à psiquiatria”

Saudações psicodramáticas para todos!
 
 
A teoria psicodramática Moreniana pode ser encontrada em diversos livros traduzidos e editados no Brasil. O maior psicodramatista vivo é o brasileiro Alfredo Soeiro, que vai estar amanhã, dia 9 de Novembro, na Lousã, no XI congresso da Sociedade Portuguesa de Psicodrama.

sábado, 3 de novembro de 2012

Psicodrama para todos

Ela foi abusada sexualmente dos 13 aos 15 anos. Como na maioria destes casos, o agressor andava por perto. Era um dos irmãos mais velhos. Tratava-se de uma família de muitos filhos e pouca condição, viviam numa pequena aldeia na ilha da madeira. Alguns dos irmãos mais velhos partiram cedo para outras paragens. Na altura dos abusos habitavam a casa,  a vitima, a irmã mais velha, os pais e o irmão agressor. Ela apenas se livrou dele quando este emigrou para os Estados Unidos. Mais tarde livrou-se da casa e das memórias mais frescas  quando veio estudar para Coimbra. Nunca mais voltou.
Agora tudo se complicara. Um irmão, emigrado nos EUA vem para casar. É inevitável o reencontro. Todos se vão juntar na mesma ilha, na mesma aldeia, na mesma casa, nas mesmas memórias. A sua ansiedade crescera brutalmente nas últimas semanas. Maria estava à beira do descontrolo. Viveu a dor silenciosamente durante anos. Mas não aguenta mais.

A directora do grupo de psicodrama, Joana Amaral Dias, depois do aquecimento psicodramático, pede a Maria que antecipe a cena do reencontro familiar no cenário (palco). Ela fixa os olhos assustados na directora. Olha para o palco, volta a olhar para a directora. Olha para mim, o Ego Auxiliar e avança em silêncio, cabisbaixa para a cena. Ela era a protagonista da dramatização daquela sessão.
No palco constrói uma grande mesa de jantar com os bancos e à sua volta senta os vários elementos, escolhidos por ela entre o grupo, que irão representar as várias personagens da sua família. Na mesa, simbolicamente, estão agora ela, a irmã mais velha, a quem na altura tinha pedido ajuda, a mãe, o pai e o tal irmão agressor. Todos os papeis são representados por elementos do grupo (egos auxiliares), excepto o do irmão agressor que é representado por mim (ego profissional), por decisão da directora

Os diálogos começam recorrendo à técnica psicodramática de inversão de papéis. A Maria começa a interacção. Primeiro dirigisse à irmã e questiona-a sobre o seu silêncio – Porque não me proteges-te? Segue-se a troca de papéis, a Maria troca de lugar com a “irmã” e já no papel dela responde – Tive medo das consequências. Ele ameaçou-me. Nas trocas seguintes a tensão sobe brutalmente. A Maria de olhos anormalmente abertos desfaz verbalmente a irmã com acusações contundentes. Está descontrolada. O seu rosto e o olhar pulverizam raiva. Segue-se a inversão de papéis com o irmão.
- Porque me fizeste aquilo seu porco? No papel do irmão e após algumas inversões de papel pressinto-lhe no olhar e no silêncio a fúria prestes a explodir. De repente a Maria acerta-me com um murro na cara com tal força que vejo estrelas e sinto-me projectado contra a parede do consultório. A directora interrompe a dramatização. Ela desata num choro descontrolado durante uns bons dez minutos. Descarrega toda a tensão. Fica tranquila. Acaba de ter uma catarse de integração.

Maria partiu pouco depois para a ilha da Madeira e o reencontro aconteceu sem ocorrências. Ela não mudou nada no seu passaso, mas naquela sessão integrou o passado de uma forma diferente. O passado é o mesmo, mas a forma como Maria o vive alterou-se profundamente.

Protagonista, director, egos auxiliares, auditório e cenário, são palavras que têm um significado específico no psicodrama moreniano. Fazem parte de léxico que, como em qualquer outra psicoterapia, permite demarcar a interacção terapêutica da interacção pessoal na vida real. Estes cincos conceitos são também os que designam os “cinco instrumentos do psicodrama”.
Então vejamos, onde se fazem as sessões do psicodrama?
O psicodrama de grupo é realizado numa sala que em muitos casos tem poucos mais de três por quatro metros e um jogo de luzes coloridas. No centro existe um estrado baixo, a que chamamos cenário ou palco, sobre o qual estão colocadas, num dos topos, duas cadeiras vazias encostadas pelas pernas da frente. Estas cadeiras são o símbolo do psicodrama e, nesta posição, significam o encontro que se vai processar. Quando o director as abre, inicia-se uma dramatização.

O Cenário é o espaço nobre do psicodrama. É o equivalente ao palco teatral. É neste espaço que se processa a acção, a representação terapêutica comandada pelo director. Para a sua execução, o protagonista pode pedir que outros elementos representem pessoas e pode compor o cenário com móveis e objectos presentes na sala, concretizando melhor o espaço representado. A forma simples e maciça dos bancos do auditória presta-se bem a este fim.
O auditório, conjunto de todos os elementos do grupo, o público portanto, deve-se aperceber de que o cenário é um espaço de liberdade. Tudo, desde as vivências mais banais às fantasias mais secretas, se pode representar nesse espaço, e tudo é reversível. O tempo pode avançar e recuar, uma acção pode ser repetida e modificada conforme as suas consequências. Pode-se simbolicamente matar ou morrer. Não se pedem contas pelo que cada elemento faz no cenário, contando que o director pode sempre cortar a cena ou intervir de outro modo.
 
O protagonista é quem vai utilizar o cenário (palco). É o elemento que, no início da sessão, no aquecimento, se destaca do grupo pela importância ou oportunidade das vivências que traz à discussão. Nesse caso ele pode ser convidado pelo director para representa-las no espaço do cenário.
 
Durante a dramatização o protagonista interage com os chamados egos auxiliares. Estes são escolhidos, de entre os outros elementos do grupo, a fim de representarem as pessoas com quem, na vida real ou na sua fantasia, ele interage. É entretanto indispensável que a equipa terapêutica inclua, para além do director, um o dois egos auxiliares com treino em psicoterapia e psicodrama, a fim de executar papeis mais difíceis e certas técnicas e colaborar com o director durante toda a sessão.

Tal como o teatro ou a vida social não existem sem plateia ou o público, a dramatização não tinha sentido sem o seu próprio público, o auditório. Este é então constituído pelos membros do grupo que permanecem sentados, ou sejam que não entraram na dramatização.
Finalmente, o director é o principal terapeuta e o responsável por todo o processo do psicodrama. Apesar de contar com a colaboração dos egos auxiliares, cabem ao director todas as decisões importantes. É ele que inicia e finda as sessões e as dramatizações, analisa o material relevante e elabora as estratégias, controla o aquecimento, escolhe o protagonista e finaliza os comentários.
(continua)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Isaltino a Procurador-geral da República


Em Portugal não é fácil ir preso. Veja-se o infeliz exemplo do azarado Isaltino Morais. O homem tem feito de tudo para ir preso e não consegue. Ele recebeu sacos cheios de dinheiro no seu gabinete. Ele licenciou obras a troco de umas massas. Ele mandou à descarada pazadas de euros para o sobrinho na suíça e nada. Nunca teve sorte.

Mais sorte teve aquela velhinha no Porto que, por roubar uma caixa de pensos higiénicos no supermercado apanhou 6 meses de cadeia. Bem feito! Para que é que a velha queria pensos higiénicos. Com certeza para trocar por droga, montar uma conspiração ou outra coisa perigosa para a nossa democracia. Abusou. Lixou-se! O estado tem que ser implacável com estes casos. Mas o Isaltino não. Esse nasceu sem sorte. E isto de ir preso não é para todos! Não vá um gajo desviar uns milhões e querer logo ir preso por dá cá aquela palha. Não! Isto aqui chia fino. É uma justiça à seria!

Outros, coitados, também têm tentado de tudo mas nada! Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Duarte Lima, Armando Vara e Sócrates, são apenas exemplos de gente sem sorte.

De qualquer forma penso que deveríamos dar o valor a quem o tem. Em Portugal impera uma invejosice mesquinha que nos impede de reconhecer o mérito pessoal. Isaltino Morais provou em tese aquilo que muitos académicos nunca conseguiram - Que em Portugal é possível não ir preso quando se tem dinheiro e acesso aos grandes gabinetes de advogados. Esse mérito ninguém lho pode tirar. Existem por ai milhares de teses de mestrado e doutoramento, de grandes figuras académicas, que nenhuma utilidade e interesse têm comparado com a fantástica tese de Isaltino Morais. E isso é obra!

Desta forma uma estátua sua em frente à Procuradoria-Geral da República Portuguesa seria o mínimo que Portugal podia e deveria fazer em homenagem a tão grande figura.

Mas o mais adequado e prestigiante para a justiça portuguesa seria a nomeação de Isaltino Morais para o cargo de Procurador-geral da República. Agora que se escolheu o novo Procurador, foi pena que assim não tivesse acontecido.

Numa altura em que o Estado gasta milhões em longos processos que nada produzem e necessita desesperadamente de reduzir a despesa pública, seria um exemplo de boa gestão entregar o cargo a tão competente pessoa. Os resultados seguramente seriam os mesmos. Mas quando desaparecessem escutas ou outras provas dos processos, como no caso dos submarinos. Ou se continuasse a arquivar sistematicamente processos por falta de provas, de tempo ou dinheiro para as recolher. Ou quando não houvesse tempo em quatro ou cinco anos para convocar e fazer meias dúzia de perguntas ao Sócrates, como no caso Freeport, já ninguém estranharia. A culpa era do traquina do Isaltino!

Assim a culpa não morria invariavelmente solteira! E poupava-se muito dinheiro em investigações!

Os resultados seriam naturalmente os mesmos, mas pelos menos acabavam-se as nossas expectativas sobre tão triste e decepcionante justiça.

Alberto Almeida escreve de acordo com a antiga ortografia.