quarta-feira, 22 de abril de 2015

São bagas, Senhor!

Acta do Tonel 71º


Estabelece esta imponente irmandade, aos vinte e três dias do mês de Março do ano da graça de nosso senhor de 2015, o título de Senhor Baga, atribuindo-o sem demoras ao irmão Beto pela demonstração inequívoca do conhecimento e domínio da casta. Valida esta irmandade a justeza e merecimento de tal distinção, reconhecendo por unanimidade que a mesma peca apenas por tardia. Por ora, e até nova deliberação, tamanha distinção será repartida pelo dito e pelo Sr. Luís Pato, também animal com provas dadas na temática.

Os ensinamentos

Sejamos claros! Nenhuma casta foi tão mal tratada como a Baga. Mais! Ela foi desclassificada sobretudo pelos próprios bairradinos, que não tiverem pejo em maltratar e maldizer aquilo que era seu por herança! Mas ela pôs-se a jeito! Ai pôs, pôs!

É que nenhuma outra casta nos fez sofrer na pele e no palato tamanho sofrimento. Todos nós já bebemos nas adegas da nossa região vinhos Baga,  também chamada por aqui de Poeirinho, tão maus que até as lágrimas nos saltaram dos olhos. Vinhos tão ácidos, delgados e frios que eram capazes de nos deixar sem voz quatro dias. Um único copo era suficiente para nos provocar um resfriado agudo, caso não tomássemos em simultâneo um Brufen ou o bebêssemos de sobretudo vestido e meia grossa calçada. Nalguns casos, era apenas possível bebê-los debaixo das mantas ou mesmo anestesiado! Uma verdadeira tortura!

Em suma, a Baga foi durante décadas tão mal tratada na vinha e na adega que os seus vinhos, sem tempo para amadurecer, foram declarados malditos, associais e indomáveis, e a casta praticamente banida a sua vinificação clássica - 85% a 100% no lote.

Resultado? No ainda vigente culto dos vinhos fáceis, jovens, doces e amadeirados, a Baga perdeu espaço e foram reconvertidos milhares de hectares de vinhas antigas em castas mais macias, quentes e aveludadas. De venda fácil! Foi por isso que a casta caiu nas ruas da amargura, cedendo o seu lugar aos Sirah, Merlot ou Cabernet Sauvignon.

Com tamanho descuido, a região da Bairrada perdeu a sua matriz de identidade, aquilo que verdadeiramente a diferenciava das outras regiões de Portugal e do mundo, alinhou na corrente dos vinhos afrancesados, colocando-se a par de tantos outros milhares de vinhos feitos com o mesmo perfil nas mais variadas latitudes. Como podia a Bairrada, uma região pequena, marcar a diferença no mundo global com vinhos feitos com Merlot ou Sirah? A região estagnou. Naturalmente!

Mas nem todos o produtores cederam às dificuldades e alguns persistiram no seu caminho, na sua crença – Marcar a diferença, pela diferença. Foram compensados! Existe hoje um movimento de reestruturação dos vinhos clássicos bairradinos e a casta e a região gozam de um crescente interesse e reconhecimento, dos consumidores nacionais e sobretudo internacionais, cansados do perfil massificado dos vinhos actuais. A Baga e a Bairrada estão na moda!

Os vinhos Baga

São vinhos muito tânicos, por vezes ligeiros de cor. Apresentam uma longevidade invulgar para um vinho de mesa e em alguns casos tornam-se lendários, irrepetíveis e com carácter absolutamente raro e diferenciado. Os grandes tintos Baga nos primeiros anos de vida mostram sobretudo aromas de vinificação. Dos três aos cinco anos parecem fecha-se um pouco, para a partir dai explodirem em fruta preta e vermelha madura, bagas silvestres maceradas, tabaco, com final de boca fino e especiado, leve vegetal e aromas terrosos muito pronunciados! Têm frequentemente um nariz muitíssimo perfumado e balsâmico, com sugestões de violeta. São vinhos diferenciados e únicos!

A prova

Neste Tonel as expectativas eram altas. Havia de resto um frenesim acrescido relativamente a provas anteriores. Uns acreditavam que poderia ser uma prova marcante, outros torciam o nariz. É que também na nossa irmandade havia adeptos e detractores da casta. Estes últimos ficaram finalmente rendidos.
 
Em causa estava a avaliação de um painel de vinhos muito diversificado, constituído por vinhos de nível médio alto, de colheitas antigas e recentes, separadas por muitos anos, estilos de vinificação e perfis de estágio também muitos diferentes - o vinho mais velho era da colheita de 1991, com 24 anos portanto, e o mais jovem da colheita de 2013. Foi uma viagem emocionante pela história da própria região! Foi como viajar no tempo, percorrer colheitas tão distantes, vinhos maravilhosamente tão únicos.

Refrescada a boca com o espumante Borga da casta Pinot Noir, do produtor Carlos Campolargo e passada a limpo com o espumante de autor Vinhas das Penicas Baga 2013, do produtor Alberto Almeida, fomos gulosos directos aos tintos, que o nervoso miudinho crescia. O chefe Pedro, do restaurante Estação de Sabores, em Miranda do Corvo, tinha-nos preparados uns consistentes entreténs de boca ainda antes do poderoso bacalhau à lagareiro saltar para a mesa, que a prova pedia comida consistente e estômago bem forrado.

Se as expectativas eram altas, bem se pode dizer, ao olhar no final para as sobras de vinho, que elas foram sobejamente superadas. Os decanters ficaram simplesmente vazios. Secos! Todos!

Numa primeira apreciação podemos dizer que os vinhos estiveram num nível muito alto. Sete dos oito vinhos em prova obtiveram classificação final suficiente para ganhar provas anteriores. A diferença ente o vinho mais pontuado e o sétimo classificado foi de apenas 12 pontos. Mais, com a excepção do vinho Baga 2013 da Filipa Pato, o menos pontuado da prova, todos os outros foram eleitos o melhor em prova por pelo menos um dos provadores. Admirável!

E o vinho da colheita de 1991? Bem, numa primeira apreciação não saltava à vista. Nem pela cor, aroma ou no ataque e final de boca. O vinho apresentava uma admirável juventude aos 24 anos de idade. Apenas 7 dos 11 experimentados provadores o identificaram. Surpreendente? Não! Defeito dos provadores? Também não! Mérito do vinho, de uma casta, melhor de uma região que tem tudo para marcar a diferença no mundo.

Classificação final

Outrora 2010, 87 pontos. Colinas S. Lourenço 2011, 86 pontos. Kompassus 2011, 81 pontos. Marquês de Marialva Reserva 2010, 79 pontos. Aliança Baga 2009, 78 pontos. Cinquentenário Adega Cantanhede 2003, 76, pontos. Confirmado 1991, 75 pontos. e prémio vinagre, Filipa Pato, Baga 2013, 65 pontos.

O irmão Beto, de ora em diante Senhor Baga, conforme titulo supra anunciado, fez o pleno na prova, identificando todos os oito vinhos!

Quer esta irmandade prestar aqui a sua homenagem a todos os homens e mulheres que trabalham nas vinha e nas adegas bairradinas, inovando e revolucionando todos os dias, de modo a colocar os seus vinhos no top das preferências dos consumidores mais exigentes. Nunca se poderá deixar de sublinhar, neste conjunto de pessoas, o papel do senhor Luís Pato, o mais emblemático e inovador produtor da bairradino e o responsável maior pela metamorfose dos vinhos da casta baga. Bem-haja!

Por fim, por unanimidade e não menos importante, ficou decidido em nome da defesa da qualidade dos vinhos apresentados a prova, com efeitos imediatos, que o irmão que apresente o vinho menos pontuado na prova, seja premiado com a apresentação de um Porto de categoria superior no Tonel seguinte. O Daniel é pois o feliz contemplado!

Agradeça-se o bom serviço do restaurante Estação de Sabores.

Irmandade dos Tonéis, desde 2000 por vinhos de um cabrão!


domingo, 8 de fevereiro de 2015


 “Declaro por minha honra preservar, promover e divulgar o ritual da irmandade do tonéis, reconhecendo o papel dos tonéis na valorização do vinho e da gastronomia que lhe está associada;

Prometo valorizar os sabores e aromas dos néctares degustados, não mais me comportando como um "envinagrado dum cabrão", nem mesmo como "curioso de tinto". “

O Tonel 69
Poderíamos começar este texto pelo caminho mais fácil! Com uns trocadilhos baratos e estéreis aproveitando a infeliz sequência numérica deste nosso tonél! Escreveríamos aqui umas graçolas de meia tigela sobre umas posições acrobáticas que obedecem a uma determinada simetria ou talvez até poderíamos invocar aqui o Kamasutra, essa bíblia do deleite. Mas o assunto aqui é vinho. E para mais, esta linguagem do sexo seria estranha para a maioria dos membros desta impoluta irmandade. Gente de postura séria e hirta! Para alguns desta ingénua gente, o Kamasutra seria facilmente confundido com o nome de um qualquer novo avançado do Sporting!
Poderíamos até, caso fugíssemos às nossas responsabilidades, e agindo preventivamente, ter saltado directamente do 68º para o 70º Tonél evitando assim conotações abusivas ou o devasso gratuito. Mas não! Jamais no desviaremos um milímetro que seja da nossa missão!
Desta forma importa com lisura e elevação passar ao largo da devassidão, figas canhoto, que até estou a suar, e falar do que verdadeiramente importa – De sexo! Perdão, de vinho!
 
A cerimónia
Ficará este tonel 69, realizado aos vinte e três dias do mês de Janeiro do ano da graça de nosso senhor de 2015, marcado nos anais desta imponente irmandade pela cerimónia de entronização dos novos irmãos Nelson, João Lopes e Victor Cancela, que vêem assim o seu actual e pobre estatuto de “curiosos do vinho e envinagrados dum cabrão” acender ao honroso título de ”Irmãos”.
O excerto do juramento acima transcrito, lido a viva e trémula voz, carimbou em definitiva tamanha pretensão e serve como prova da enorme bondade e condescendência da nossa digníssima congregação. Um marco. Uma responsabilidade. Parabéns!
 
Ataque de boca
E enquanto os oito vinhos do Dão arejavam, região em prova no presente jantar, iniciamos o aquecimento vínico/gastronómico com a prova de três espumantes – Messias branco bruto 2012, Penicas rosé bruto 2013 e Terras do Demo bruto 2011, que embalaram com coragem e brilho o carácter fortemente condimentado das sardinhas e enchovas de conserva e dos queijos de cabra da região de Castelo Branco.
 
O rigor gastronómico do Irmão Nelson e de sua excelência o nosso Grão-Mestre e Chef reputado Fernando Marques, ficou definitivamente vincado com a apresentação das entradas – Umas vieiras gratinadas no forno com ovo, queijo e pão torrado, acompanhadas por dois Vinhos Verdes varietais – o vibrante e consensual Soalheiro Alvarinho 2011 e um controverso Avesso 2005, já com marcadas notas de evolução, de que já nem do nome nos lembramos.
 
O repasto principal foi confeccionado a partir de sete Sargos pescados à linha nas águas de Baiona, nos beiços da co… actchimmmm,  perdão, da costa Galega, pela cana do nosso novo irmão João Lopes. Assados no forno com batatinhas e servidos em cama de espinafres com mel, ganharam o estatuto de iguaria, ombreando de modo franco com os oito elegantes mas poderosos vinhos do Dão, desfazendo assim esse mito urbano – que não se deve acompanhar peixe com vinho tinto. Ai está a prova provada que bons vinhos acompanham bons peixes! Já os maus não acompanham coisa nenhuma!
 
Notas de Prova
Respondendo ao repto lançado no último Tonél, de que o vinho apresentado a prova carece de sumária apresentação, na qual o proponente fundamenta a sua sugestão, os irmãos não se fizeram rogados e apresentaram-se na prova exemplarmente documentados. Era vê-los munidos de pastas de apontamentos e argumentos afinados na ponta da língua, mostrando trabalho de casa bem feito. Se a irmandade fosse financiada pelo Estado, no próximo Tonel alguns levariam assessores!
Em prova, por ordem de classificação, apresentaram-se os seguintes vinhos: Corga Touriga Nacional 2011 e Quinta da Fata Reserva 2011 (1º lugar ex aequo, 75 pontos), Chão da Quinta 2011 (3º lugar, 73 pontos), Quinta dos Carvalhais 2010 (4º lugar, 72 pontos), Quinta da Vegia 2010 (5º lugar, 64 pontos, Fuga - Casa da Passarela 2011 e Ribeiro Santo Reserva 2011 (6º lugar ex aequo, 62 pontos e a distinção vinagre para o aristocrático Quintas de Saes, 2011, Estágio Prolongado (58 pontos). Este último terá sido a desilusão da noite!
 
Fim de boca (dissertações)
A irmandade não prova vinhos só porque sim, fá-lo com um intuito bem claro. Se em primeira instancia o objectivo é avaliar 8 vinhos em cada prova, num momento subsequente pretende esta congregação elaborar pensamento crítico sobre os perfis, caminhos e tendências do Vinho. O crescente fenómeno da adocicação, perfumação e sobretudo de madeirização dos vinhos não nos tem passado ao lado. Neste Tonel, dois vinhos revelaram-se, na nossa opinião, bons representantes dessas tendências, a saber -  O vinho Quinta de Saes (vinagre, 58 pontos) que apresentava carácter fortemente perfumado, escondendo aromas mais vinhosos ou vegetais e o Chão da Quinta (3º lugar, 73 pontos), que revelava sobretudo notas florais, doces e pronunciadas notas de barrica. Na prova, se a irmandade foi severa com o primeiro, já relativamente ao segundo foi bastante contemplativa, atribuindo-lhe o honroso 3º lugar. Afinal, talvez os produtores tenham razão – É de madeira e de notas doces que elas e eles gostam mais!
E por falar em doces, no cair do pano, serviu-se um irrepreensível arroz doce à moda de Coimbra, acompanhado por um poderoso Croft Porto Vintage 2012. Nunca Pior!
Agradeça-se a hospitalidade do irmão Nelson.
 
Irmandade dos Tonéis
Fundada em 2000, por vinhos de um cabrão
 
 
 


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Irmandade do Toneis - Acta do 67º Tonel


                                                                                  
Quis a ironia do destino que o vinho alentejano José de Sousa 2010 tivesse sucumbido (o menos pontuado da prova, com 52 pontos) no preciso dia em que, outro José de Sousa, um tal de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa tombava também retumbantemente nos calabouços da Policia Judiciária! O tombo do segundo era bem mais esperado que a do primeiro diga-se.
Noutra boa ironia do destino, neste tonel, triunfou o duriense Meandro 2011 (68 pontos), justamente na semana em que a região do Douro caia nas bocas do mundo vinícola depois de ter visto a famosa revista norte americana Wine Spectator colocar 3 vinhos da região nos 4 primeiros lugares do seu top 100. O Dow´s porto vintage de 2011, ocupa o primeiro lugar no ranking anual da revista com 99 pontos e os tintos Quinta do Vale Meão  e Chryseia ocupam os 3º e 4º lugares, acequio,  com 97 pontos. Ambos da já mítica vindima de 2011, que se afirma como umas das grandes colheitas dos últimos 100 anos. Aliás, no momento de comprar bons vinhos portugueses, na dúvida entre colheitas, podemos optar sem grande risco pela de 2011. Seguramente compramos um excelente vinho, independentemente da região de origem.
Mas o que importa aqui igualmente ressaltar são outros meandros - os de uma irmandade constituída no ano de 2000, constituída do 8 irmãos, que se propôs viajar por vinhos complicados, vinhos de um cabrão e que o tem feito, ao contrário de outros, os tais que à hora de trabalho vêm “mulheres avantajadas”, com competência, isenção, paixão e dedicação desinteressada durante 14 anos e 67 tonéis (provas), como manda a cartilha dos amantes do vinho.
Constituída pelos oito irmãos na foto acima publicada, foi no presente tonel tomada a tardia decisão de alargar a sua composição aos irmãos Nelsinho, João Lopes e Victor Cancela que veem o seu actual estatuto de curiosos do vinho, passar no próximo tonel a irmãos de pleno direito. Claro está que a cerimónia de entronização carece de rituais próprios e devidamente previstos e fundamentados em cartilha suprema, salientando-se, neste caso o imperativo do acto carecer, para atestar da sua legalidade, da abertura de um qualquer Porto um vintage de 2011 promovido pelos três ditos em agradecida comunhão. A ocasião obriga a tal esforço! Ao nosso, perceba-se, que isto de beber um bom vintage em fecho de refeição tem o seu quê de doloroso! Mais para os três claro!
A irmandade Perdeu fulgor? Perdeu! Vai acabar? Nada disso! Aos amantes do vinho não basta produzir lugares comuns ou frases feitas sobre o dito. Cumpre-nos a nós evitar que tão ilustre congregação resvale para tal enfermidade. O Vinho na vida de uma amante ganha dimensão poética, carece de uma lógica emocional interpretativa. De um fundamento. De um propósito. Não basta que o vinho apresentado seja bom, condição de resto obrigatória. O vinho apresentado por um amante do vinho deve ter uma história e contar estórias, representar um enamoramento, uma paixão. Deve comunicar algo! E tanto quanto possível essas estórias devem entrelaçar-se com as vivências do seu proponente. Claro fica que jamais de deve comprar um vinho à pressa, sem preparação prévia ou a caminho de uma prova, a não ser que se trate claro está, neste caso, de um qualquer Barca Velha por ai abandonado na prateleira um qualquer estabelecimento. Igualmente se exige presença assídua, não contando impedimento menor como fundamento válido para uma falta! Para além da morte do próprio, contar-se-ão com os dedos de uma só mão outros argumentos válidos. O que jamais poderá acontecer é que a morte do próprio não nos seja comunicada ou que o dito vá morrendo aos poucos sem aviso. Mas vamos ao vinho!
Neste tonel estavam em prova, como sempre, oito vinhos. Para além dos dois vinhos já mencionados, foram a degustação os bairradinos Avô Fausto 2010 da Quinta da Bageiras (4º lugar, 59 pontos) e Casa de Saima grande reserva 2011 (6º lugar, 58 pontos). Da planície alentejana, para além do já referido José de Sousa, estavam o Fita Preta 2012 (5º lugar, 59 pontos), o Herdade do Peso 2011 (3º lugar, 61 pontos) e o vinho Azamor 2010 (7º lugar, 54 pontos). Da região duriense, o já referido vencedor e ainda o vinho Poeira Dusty (2º lugar, 65 pontos).
Em dia de jackpot, o irmão Luís identificou os todos os vinhos em prova, método de semicega, igualando o feito único, até à data, do Irmão Meno, entretanto por terras de Vera Cruz. Sorte? Claro. Mas não só! Em prova estavam 3 regiões bem diferentes, a Bairrada com a garra dos taninos, as vezes indomáveis, dos seus baga, a planície com os seus vinhos de fruta bem madura, quase compotados, mas por vezes poucos frescos e o Douro com a sua pujança e incrível equilíbrio. Naturalmente estavam perfis bem diferentes em prova e a partir deste pressuposto seria teoricamente mais fácil identifica-los, quanto mais não fosse por região. Digo eu!
E se alguém lhe oferecesse flores… isso provavelmente será Touriga Nacional
Num pequeno inquérito realizado na irmandade foi pedido a cada um dos seus irmãos que, partindo do seu saber, das suas paixões, da sua experiencia vínica e do perfil de vinhos que procuram, respondessem à seguinte questão – Que duas castas plantariam numa vinha própria? Oito dos nove irmãos presentes escolheriam a casta portuguesa Touriga Nacional como primeira opção de plantação. Na segunda opção, a maioria dos irmãos associariam à primeira escolha a casta Baga. As restantes escolhas ficaram a grande distância e dispersaram-se, por entre alguns disparates, por várias castas.
Esta conjugação de castas em termos de região coincide tradicionalmente com a encontrada na região do Dão e sobretudo na Bairrada em terrenos respectivamente de origem granítica e argilo-calcários, capazes de emprestar grande frescura e mineralidade aos seus vinhos. Seriam vinhos, se bem feitos, encorpados, estruturados e longevos que associariam os taninos poderosos e por vezes indomáveis da Baga com os taninos firmes e elegantes da Touriga Nacional. No nariz, apresentariam as notas florais exuberantes da Touriga Nacional e os aromas a frutos silvestres e bagas vermelhas da baga, que evoluiriam para notas aromáticas mais complexas de ameixa preta, tabaco e café, com o tempo, se vinificados, claro fica, na Adega das Penicas. Seriam vinhos de guarda seguramente!
As hostilidades abriram, ainda antes do jantar, com a prova dos espumantes Vinha das Penicas rosé 2013 e Vinha das Penicas 100% Baga 2013 que acompanharam, bem, as diversas entradas preparadas pelo chefe António Neves. Seguiu-se uma original sopa de ortigas, bacalhau confitado com migas e um soberbo leite-creme queimado na hora, que fez companhia a um moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca e a um vinho do Porto 10 anos.
Agradeça-se ainda a hospitalidade do casal António e Susana.
E porque a vida é por vezes bem amarga, bebamos então bons vinhos e cuidemo-nos enquanto é tempo!
(P.S: Este texto não é ficção, ele reproduz fielmente, tanto quanto o vinho permitiu, os momentos e as ideias expressas pelos irmãos durante a degustação e respectiva Prova.)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os afinadores de pessoas



Ela tentara o suicídio vinte e quatro horas antes. O acto pareceu mais apelativo que verdadeira intenção de morte, mas nunca se sabe. Na sessão seguinte, apresentava um ar arrebitado, vivaço, pouco consistente com quem quisera morrer na véspera. Mulher de estatura alta, autoritária, dinâmica, inteligente, perspicaz, humor corrosivo, visão irónica, de grande exigência sobre ela própria e sobretudo sobre os que a rodeiam! No Átomo Social (técnica de apresentação psicodramática) foi-lhe pedido que colocasse no palco (instrumento psicodramático) as pessoas mais significativas – o pai, teimoso e autocrático, a mãe, submissa e deprimida, o irmão, menino da mamã, superprotegido e acomodado e finalmente o marido, influenciável e indeciso! Apresentava portanto, reservas sobre todos, ainda que se lhes declarasse um amor inequívoco! Mesmo relativamente ao marido de quem se tinha separado após apenas seis meses de casamento e dez anos de namoro. Apesar deste amor sem fim tinha, sobre todos, qualquer coisa a apontar, uma espécie de espinha atravessada na garganta, que impedia a sua satisfação plena! Era uma mulher sobressaltada e, nas sua próprias palavras, infeliz!
Quando o director do grupo lhe pediu que trocasse de papel com cada uma das pessoas significativas que colocou no palco, revelou uma inesperada dificuldade. No lugar dos outros, o discurso outrora escorrido e fácil, perdeu fluidez, espontaneidade e sucumbiu a silêncios incómodos. Não sabia colocar-se no lugar dos outros. Nunca o tinha feito! Estava amarrada aos seus próprios papeis, à sua visão do mundo! Apresentava um enquadramento  inquinado sobre a realidade circundante, feito quase exclusivamente a partir da sua própria “janela”. Encerrada em si, nesta posição, jamais poderia compreende-los.
Quando o director lhe pediu para mudar o que desejasse na cena, percorreu-os um a um e deu-lhes uma pequena afinação, mais simpatia neste, menos submissão naquele, mais atitude no aqueloutro. Afinou-os como se eles tivessem um pequeno parafuso de regulação atrás da orelha, que ela sabiamente, munida de uma pequena chave de fendas imaginária, ajustava ora mais para a direita, ora mais para a esquerda, até os colocar no ponto! Sobre ela própria nenhuma palavra, nenhuma mudança! Neste sentido, ela em pleno sofrimento, advogava uma solução mágica – ajustar o mundo a si em vez de se adaptar a ele. Um equívoco portanto!
Somos todos, uns mais que outros, um pouco assim – instalados no nosso castelo, no nosso cadeirão panorâmico, centrados no nosso umbigo, esperamos que as relações com os outros e com o mundo sejam uma espécie de fato feito à nossa medida! E perante a diferença, estremecemos, sentimo-la frequentemente como uma ameaça à nossa construção e à nossa organização interna. Temos imenso medo do que é diferente, do que é desconhecido. E como a melhor defesa é o ataque, fazemos o contraditório, o ataque ao outro, partindo muitas vezes de uma visão enviesada e  inquinada. Este ataque ganha contornos e amplitude mais ou menos intensos, consoante o nível do conflito e o perfil da personalidade de cada um, seja na forma psicológica ou, no limite, podendo chegar à eliminação física do outro.
Estamos muito pouco dispostos a mudar, a ceder ou a conceder. Estes fenómenos revelam-se nas famílias, nos grupos sociais, nas organizações, na política, na economia de mercado ou em qualquer outra área da esfera das relações humanas.
Sob o argumento da diferença são retirados todos os dias direitos fundamentais a pessoas, a grupos ou agregações de toda a natureza, reduzindo-lhes ou aniquilando-lhes o direito de escolher, de ser livres, de expressar a sua opinião, de expressar a sua religião, as suas opções sexuais ou a liberdade de exibirem a cor da sua pele, oprimindo-os, negando-lhes a qualidade de se constituírem com outro diferente! Reduzindo-os à imagem e semelhança do dominador.
A diferença de opinião torna-se argumento que legítima o ataque, legítima o exercício da prepotência, da discriminação, da dominação e da exploração! A diferença merece, neste contexto, o estatuto de inferioridade.
Este ano morreram já mais de trinta e cinco mulheres vítimas de violência doméstica ou crimes de natureza passional. Morreram também 10 homens. Ironicamente,  sete deles
suicidaram-se após terem executado as (ex) companheiras.
Para muitos, o lema continua a ser “mais vale quebrar que dobrar!”
 


quinta-feira, 15 de maio de 2014

AS ABELHAS ESTÃO A MORRER

As abelhas estão a morrer! Estima-se que entre 50% a 90% da população total das abelhas, dependendo das regiões do mundo, tenha já desaparecido. As causas deste desastre ainda não foram estabelecidas.

Esta epidemia, de amplitude e violência colossais, está a alastrar de colmeia em colmeia por todo o planeta. Milhares de milhões de abelhas deixam as suas colmeias para nunca mais voltar. Nenhum cadáver de abelha é encontrado nos terrenos circundantes. Em poucos anos, as abelhas têm vindo literalmente a desaparecer.

Nos EUA, estima-se que tenha já desaparecido1,5 milhões de colmeias (de um total de 2,4 milhões). Os americanos importam agora abelhas da Austrália para fazer a polinização dos gigantescos campos de amendoeiras da Califórnia. Este cenário é mais ou menos semelhante em todo o mundo. Esta síndrome foi baptizada como “fenómeno Mary Celeste”, a partir do nome do navio cuja tripulação desapareceu misteriosamente em 1872 sem deixar rasto.

Cerca de 80% das espécies de plantas precisam das abelhas para serem polinizadas. Sem elas, não há polinização, logo, não há frutos. Três quartos das culturas que alimentam a humanidade dependem delas.

Esta desordem das abelhas parece não ficar a dever-se a um factor em concreto, mas a todo um conjunto de factores nascidos com industrialização como os pesticidas, o stress e a multiplicação à escala mundial das ondas electromagnéticas que perturbam e destroem as suas defesas imunitárias.

Tal como os trabalhadores, as abelhas estão a ser vítimas do sistema capitalista e da economia de mercado neoliberal! Os mercados pressionam os apicultores e estes pressionam as suas abelhas a aumentar ainda mais o seu desempenho com menos condições. As abelhas tornaram-se trabalhadores escravizados e sobretudo, através dos cruzamentos genéticos, foram modificadas tornando-as mais produtivas e mais dóceis. Muitas já não picam sequer! São apenas uma máquina de fazer dinheiro a quem basta apertar um botão para pôr a funcionar sem qualquer tipo de reclamação.

O resultado está à vista. Na china milhares de trabalhadores fazem já a polinização manualmente das árvores de fruto elevados em escadotes, munidos com pequenos cotonetes e sacos de pólen comprado aos mercados ewspecializados, substituindo assim o pequeno insecto.

A Apis Melífera (abelha europeia) surgiu na terra 60 milhões de anos antes do homem e deve ter-se já arrependido de tal encontro! A verdade é que nunca precisaram do Homem para sobreviver e acabam agora por sucumbir à sua ganância. As abelhas melíferas parecem simplesmente ter desistido, lançaram a toalha ao tapete! Mandaram-nos passear!

 Mas, ironia do destino, aconteceu o impensável! A partir de um cruzamento realizado há uns anos num laboratório brasileiro entre abelhas africanas, conhecidas por abelhas assassinas, com a espécie Apis Melífera Europeia, conseguisse uma nova espécie, a que se chamou Abelha Africanizada. Vinte e nove enxames desta nova espécie fugiram e multiplicaram-se um ritmo elevado, espalhando-se por todo o mundo, inclusive na Europa!

Pois bem esta nova e futuramente dominante espécie é absolutamente intratável e tem agitado os mercados! O alarmismo tem sua razão de ser, já que a agressividade apresentada reduz drasticamente as capacidades humanas nas tarefas de manejo, da sua domesticação. Esta nova espécie está a pôr em causa um negócio de milhares de milhões. Os mercados estão em pânico!

Este é um dramático e simultaneamente belo exemplo da adaptação e da revolta das espécies à tentativa cega e gananciosa de domínio por parte do homem. O homem pode ter a ilusão do poder, de ter a faca e o queijo na mão, mas a natureza encarrega-se amiúde de o contrariar de forma clara e inequívoca. Repare-se na violência dos fenómenos atmosféricos e outros em que a mãe natureza lembra quem de facto manda nesta merda!

Mas o mais extraordinário fenómeno da natureza está para chegar. E chegará no dia em que, à semelhança das abelhas, homens escravizados por outros homens sem escrúpulos se cruzarem com uma outra espécie mais feroz e mais avessa a sistemas de dominação,  darão origem a uma nova espécie!

Nesse dia, este novo homem, nascido deste novo cruzamento, chamar-se-á africanizado, asiatizado, cruzado com ET´s ou outra merda qualquer, irá lançar o maior ajuste de contas da história da humanidade! A revolta do homem escravizado focar-se-á nos sistemas dominantes, nas economias de mercado neoliberais, nos mercados, na injusta distribuição dos recursos do planeta.

Este novo homem não usará smartfones, iphones, ipads ou outras tecnologias de ponta. Este novo homem não usará armas de guerra. Este novo homem não cederá a lóbis, ao poder do dinheiro ou outro qualquer poder. Este novo homem, geneticamente mais dotado, de falo em riste, fará justiça com as próprias mãos, de forma nua e crua!

Este novo homem já tarda!

“Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida", Albert Camus

















terça-feira, 22 de abril de 2014

Mas que grandes FDP

Talvez não houvesse melhor ideia para ilustrar o estado do país e simultaneamente celebrar o 40º aniversário do 25 de abril de 74 que esta coisa do sorteio dos carros. Estes grandes FDP tiveram uma ideia genial! Com o sorteio fiscal, finalmente todos os pobres irão pedir factura e acaba-se de vez com a evasão fiscal! Instala-se de vez a democracia! Quem é o pobretana que resiste à ideia de ter um carro topo de gama parado à porta? O dinheiro vai jorrar nos cofres do estado. É que os pobres estão cheios de dinheiro!

Já se sabia que este governo não era de modas e ao contrário de outros governos de outros países que perseguem os ricos, o nosso é especialista em caçar pobres. É uma ideia lógica! Em Portugal os pobres são já uma praga e portanto eles que pagam a crise - essa obra-prima de sucessivos desgovernos, BPP´s, BPN´s e afins. Para quê incomodar os ricos, coitados!

Por outro lado esta ideia instala oficialmente a animação na política nacional, ressentida do eclipse de Alberto João Jardim e do deputado também madeirense da vassoura e outros fanfarrões do género! O panorama andava cinzentão e nada melhor que um sorteio de carros topo de gama alemães para animar a malta!

A grande dúvida é a de saber quem seria a personagem ideal para apresentar o sorteio contra a evasão fiscal! A quem avance os nomes de Dias Loureiro, Duarte lima ou até o do próprio Oliveira e Costa, a comer umas sandes de couratos pelo meio. É que quando se trata de evasão fiscal a coisa tem que ser apresentada por alguém que domine a matéria!

Também concordo com a ideia da senhora presidente da Assembleia da República de arranjar patrocinadores para as comemorações do 25 de Abril. Acho muito bem que se privatize as comemorações. Aliás, não se entende como é que o país que privatizou tudo o que dava lucro, não tenha ainda privatizado as comemorações ou até a própria Assembleia da República. De facto Portugal é um país que sabe marcar a diferença – precisa de receitas, já que tem repetidos deficits anuais, mas privatiza tudo o que dá lucro e fica apenas com o que dá prejuízo! Parece que o capitalistas não gostam de coisas que deem prejuízo. Gostos!

De resto seria até de bom-tom que se privatizassem os próprios deputados. Há muito tempo que os senhores deputados deveriam ostentar na lapela do casaco uma placa publicitárias com a designação de quem de facto os patrocina, tipo o logotipo do BES, BPN, BIC ou mesmo uma farda ou coisa do género. Pelo menos assim ficava tudo muito mais claro! Peca por tardia esta grande ideia! De resto eles, coitados já estão em precária situação de semiprivatização, uma vez que não estão obrigados a qualquer regime de exclusividade e como tal têm de trabalhar de manhã à noite. De manhã na assembleia da república e à tarde nos grupos financeiros ou outros que com sacrifico representam. Recentemente até lhes fizeram uma grande maldade - o projecto de lei que defendia a sua exclusividade foi chumbado pelo PSD, CDS e, imagine-se pelo PS!

Mas voltando aos carros, como é que ninguém nunca se tinha lembrado disto? É que os poderes de um carro topo de gama eram por demais conhecidos. Eles facilitam negócios, ajudam a ganhar concursos, eles impressionam amigos e conhecidos, eles ajudam até a abrir muitos pares de pernas! Toda a gente sabia que aparecer num carro topo de gama na faculdade dava direito a mais umas quantas quecas! Já todos sabiam que o reconhecimento social do sucesso de uma vida de trabalho de um emigrante é proporcional à “bomba” que apresente na terra no mês de Agosto.

De uma forma geral qualquer cidadão é medido socialmente pelo carro que tem estacionado à porta de casa. Na admira pois que qualquer cidadão seja honesto, traficante, politico ou qualquer outro criminoso bem-sucedido queira exibir o seu topo de gama!
O carro topo de gama é assim uma montra e simultaneamente uma espécie de isco, de engodo nacional! Não se compreende como tivemos de esperar 40 anos para que o iluminado Pedro Passos tirasse este Coelho da cartola.

Não admira pois que a nossa actual classe politica veja num automóvel topo de gama o símbolo do sucesso, um poder mágico, mobilizador, disciplinador e até moralizador da sociedade portuguesa. É que para esta geração de governantes jotinhas ter um topo de gama é sinónimo de vingar na vida!

Naturalmente que o governo poderia oferecer outro tipo de recompensa, tipo atribuir caixas de viagra para ajudara resolver o problema da natalidade, ou umas bolsas de estudo para ajudar fixar no país os cérebros portugueses, abrir contas poupança, ou outra merda qualquer! Mas não era a mesma coisa. A paródia nacional exigia uma coisa em grande! Um sorteio de carros! Preocupados com a audiências estão já a SIC e a TVI, que resultou já na mega transferência do João Baião!

É que os nossos governantes são, como escreveu alguém sobre Rui Rio, uns grandes FDP – Fãs De Popós, portanto!

Abençoados!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Agora tudo ou nunca mais

Tenho uma perna mais curta! Sou assim uma espécie de triângulo escaleno andante ou um tripé de pernas irregulares mas firmes. Umas mais que as outras, é certo! Fiquei deprimido, como convém a um bom neurótico claro está. Para comemorar, inscrevi-me na corrida mais dura que alguma vez fizera - o Utax – Trail dos trilhos da Serra da Lousã! Era agora ou nunca mais! Uma prova de 42 km, serra acima, serra abaixo, um poderoso contraste entre beleza e dureza, capaz de nos provocar uma overdose de serotonina!

O Trail Serra da Lousã iniciou-se às 9h em Castanheira de Pêra, seguindo em direcção ao parque eólico na espinha da Serra da Lousã. Depois de percorrer cerca de 7 km no topo desta cumeada, descemos para as aldeias do Catarredor e Vaqueirinho, e daí para a Aldeia do Xisto do Talasnal, onde estava localizado o nosso primeiro abastecimento.

À saída do Talasnal, o percurso do trail desce por um trilho técnico até a uma levada de água, que segue ao longo de 800 m para depois encontrar o trilho de ligação à Aldeia do Xisto do Candal. Aos poucos abandona-se a aldeia e surge um novo trilho em direcção à Cerdeira (o abastecimento seguinte). A passagem por esta Aldeia do Xisto adivinha o fim desta longa subida e depois de um último esforço começam a avistar-se os aerogeradores de Vilarinho e por fim o Trevim, ponto mais alto da Serra da Lousã, com 1205 metros de altitude.

Do Trevim segue-se para Santo António da Neve, passando junto à Capela e aos Poços de Neve - Local de romaria e festa dos povos serranos, a capela e os poços de neve fazem-nos sonhar com tempos remotos em que o povo arduamente recolhia e armazenava a neve, transformando-a no gelo que na época estival seguia em carros de bois até ao Rio Zêzere ou rio Tejo e daí em barcos até à Casa da Neve, que há época detinha o estatuto de fornecedor da casa real e, em caso de o gelo ser abundante, estava autorizada a vende-lo para cafés e hotéis da cidade a oitenta reis o quilo.

Este é o ponto de partida de um trilho imperdível e cheio de história (o trilho do neveiro), que desce para o Coentral Grande, onde estava o último abastecimento da prova. Os últimos quilómetros apresentam um desnível suave ligando o Coentral às aldeias de Sarnadas e Pisões, com passagem pela Praia Fluvial do Poço do Corga, Torgal, e terminando em grande com a passagem pela Praia das Rocas e o sprint final, de gatas, até para a Praça da Notabilidade.

O problema foi que nos enfiamos num café a beber minis pretas a 10km do final da prova e nos esquecemos que os últimos quilómetros, sendo os mais suaves a nível do relevo, seriam os mais cruéis para umas pernas que já massacradas por cerca de 32 quilómetros. Mal engulo o primeiro trago de cerveja, o meu cérebro  festejou, entendendo que a prova tinha acabado. Paralisei. Cheguei à meta paralisado!

Claro está que no domingo estive de cama todo dia e na segunda-feira sentia-me "apenas" um pouco pior! Uma semana antes, preventivamente tinha comprado uma palmilha para enfiar na sapatilha da perna mais curta! Mas, por azar e na pressa do dia, confundi as pernas e acabei por correr mais de quarenta quilómetros com a palminha na sapatilha errada. Por isso diziam, nos postos de controle - Eh pá aquele gajo vai  a correr na diagonal! Eu, estúpido, ria-me a olhar para um parolo qualquer meio torcido que seguia a meu lado!

Seguiu-se uma mais que justificada ida ao endireita por sugestão sábia de um amigo.O homem era um mago claro está, bigode à Tonico Bastos, trinta anos de experiência, dos quais 15 no Japão ou na puta que o pariu e um basto curriculum que ocupava todas as paredes do consultório. Depois de me chamar doido por andar armado em parvo a correr, lá me mandou deitar numa marquesa tamanho XXL, onde, num estranho ritual ancestral, começou entre bufos e urros e revirar de olhos a puxar e repuxar todas as partes do corpo que conseguiu apanhar! Largou-me morto no chão e bastante mais aliviado… na carteira está claro! No dia seguinte recomeçaram as dores, acrescidas da dor de alma por ainda acreditar em endireitas e em estórias da carochinha!