sábado, 16 de maio de 2015

Os encaralhadores


 
 

























A arte do encaralhanço é um desporto nacional! É levada a cabo por encaralhadores profissionais. Estes profissionais do encaralhanço estão presentes em todo lado. Uns são nossos vizinhos, outros conhecidos, colegas de trabalho ou até nossos chefes. O seu objectivo é basicamente impedir que a coisa avance. São aqueles tipos ou tipas que nem fodem nem saem de cima! Nem lá vão nem deixam ir! Há-os em todo lado, sobretudo nas repartições públicas. Mas existe uma classe onde eles se encontram em abundância – na classe das chefias! São os casos mais graves!
 

A maioria dos portugueses alimenta um sonho secreto – o de um dia chegar a chefe de qualquer coisa! Chefes há-os de todos os géneros, uns são chefes de outros chefes, outros apenas de alguns trabalhadores, outros apenas chefes de si próprios, outros de merda nenhuma. Estes últimos são os que menos prejuízos dão à nação. Mas dizia eu, se um dia o tal gajo que sonha ser chefe conseguir concretizar o seu sonho, no dia seguinte, põe em prática a arte do encaralhanço.

 

Primeiro começa por dizer mal do chefe anterior – um incompetente, um encostado, um burgesso. No segundo dia de trabalho toma a sua primeira medida! Mudar a disposição do gabinete. Dispõe todos os móveis ao contrário do seu antecessor. Mesmo que não existam fichas eléctricas adaptadas à nova disposição, ele inventa e transforma aquilo numa central eléctrica, com extensões e cabos eléctricos pelo chão ao ponto de um gajo, se não tiver atenção, cair e partir os cornos contra uma esquina qualquer. Finalmente coloca umas fotos de família para marcar o território, como fazem os cães. Só não alçam a perna e mijam para as pernas dos móveis por sorte. Aquele passa a ser o seu território.

 

Depois dessa revolução, altamente estratégica, que ocupa todos os funcionários durante uma semana, o gajo passa ao passo seguinte – reformular procedimentos. Então, independentemente da eficácia dos anteriores, ele adopta um exaustivo pacote de novos procedimentos para encaralhar. Mesmo que se revelem disfuncionais, ele mantém-nos teimosamente só para ficar claro que quem manda naquela espelunca é ele e mais ninguém.

 

O passo seguinte, consiste em rejeitar todas as ideias (boas e más) que lhe proponham, não vão elas tirar o brilho à sua extraordinária liderança. No fundo o que o encaralhador quer é deixar a sua marca, sentir-se como o galo no poleiro.

 

Se um gajo propõe uma ideia, ele não aceita à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Tem que reflectir. Ponderar! Pesar os prós e os contras. Pede uns dias. Depois arruma a proposta na gaveta e com um bocado de sorte nunca mais vê a luz do dia. É arquivada automaticamente. Nunca mais se ouve falar de tal merda!

 

Apesar de não acontecer nada! O gajo marca reuniões regulares! Aproveita-as para esfregar o seu sôfrego ego. Fala de umas viagens que fez com a mulher em mil novecentos e troca o passo às Caraíbas, a Palma de Maiorca, à romaria do Santoinho e à puta que o pariu. Fala de uns projectos em que esteve envolvido, nos quais teve papel relevante, senão fundamental, com resultados verdadeiramente estratosféricos.

 

Enquanto isso, um gajo vai gatafunhando uns bonecos nas folhas pagas pela repartição. Acrescenta umas linhas, mais umas linhas, até que constrói uma banda desenhada! Depois faz a lista do supermercado, idealiza o jantar, o vinho para o acompanhar, projecta um vinho da próxima colheita e quando de repente acorda, volta à realidade e dá com o gajo todo babado, ainda a falar dos seus feitos heróicos!

 

Entretanto fala apaixonadamente dos projectos futuros, enumerando uma lista exaustiva de novas ideias de que vais ouvir falar pela primeira e ultima vez.

 

O encaralhador não toma decisões. Tem medo de ferir susceptibilidades. É redundante, teórico, abstracto. A melhor forma de se manter no cargo é não fazer ondas. Faz uma gestão tranquila. Nunca toma partido. Mantém-se ali naquela zona de conforto, na terra de ninguém. Na ambivalência!

 

Um dia, porque se portou bem e até fez uns favorezitos a um outro encaralhador, será promovido ao posto de encaralhador-mor! Até que um dia chegarão encaralhadores de outras cores e vão todos para o caralho!

 

Ai a coisa recomeça. A primeira acção do novo encaralhador é dizer mal do seu antecessor, depois reconfigura o seu gabinete.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Esta Vertigem!


 
Talvez a vida não queira muito mais de nós que a capacidade de gerir esta incerteza que decorre da particularidade de vivermos neste limbo, nesta posição limite, na qual a vida e a morte coabitam paredes-meias. Viver nesta tensão, e apesar disso portarmo-nos como imortais até que a morte nos leve, é a nossa maior empreitada, o nosso desafio maior.

De resto a morte foi a maior invenção dos senhores do universo. Que outro sistema ou modelo é mais democrático, sem critérios de excepção? Se outro modelo fosse possível, rapidamente se instalaria um regime de excepção, cozinhado nas catacumbas da maçonaria, em que  só morreriam os tristes dos pobres, transformando o mundo num habitat exclusivo para ricos. Erradicava-se de vez a pobreza é certo, mas depois seria tudo uma grande chatice – Um mundo constituído por gordos a fumar charutos e a beber champanhe! Sem falar que os gajos acabariam por se comer uns aos outros!

Por outro lado, é a ideia de que um dia iremos partir que nos permite organizar. Tudo tem um tempo, a seu tempo. Se nunca morrêssemos, havia merdas que nunca faríamos. Com tanto tempo livre não teríamos pressa para nada! Tipo, uns casariam aos 15, outros aos 50, outros aos 125 anos! As festas de casamento pareceriam os concertos transgeracionais dos Stones! Assim não! Temos que acelerar, pois nunca se sabe se vamos ter o tempo que precisamos.

Portanto, a ciência da vida, se ela existir, é muito menos complexa do que o que parece – resumindo será viver o dia a dia, apesar da nossa finitude, e fazer desse quotidiano uma marca. A nossa marca! Construir dia após dia algo de verdadeiramente significativo, marcante e engrandecedor da nossa condição de animais efémeros. No fundo deixar a nossa pegada! Esclarecer, através desse percurso, como gostaríamos de ser lembrados pelos demais depois da nossa partida.

O que gostaríamos nós de ter inscrito na lápide da nossa sepultura? “Aqui jaz um gajo porreiro, amigo do seu amigo”, ou simplesmente “aqui jaz um camelo, um grande filho da puta”?

No meu caso, não tenho nenhuma pressa para morrer! Poderia até afirmar que se fosse alterada esta regra de todos terem um dia que falecer, eu próprio, que até conheço um gajo que conhece outro que é amigo do primo da mulher do presidente de um organismo que tutela estas merdas, meteria uma cunha para andar ai a passear os esqueleto pela eternidade! A fazer companhia aos ricos gordos! Mas não!

Então, sem tempo para enriquecer, só me resta a defesa intransigente de alguns pilares fundamentais à minha realização pessoal, a saber - a defesa do conceito e do valor da família, os valores e os princípios que me foram transmitidos pelos meus pais, a amizade em elevado grau de pureza e a construção de um sonho -  fazer vinhos. Isto claro está, para além de outras miudezas! Importa aqui, por agora, clarificar esta questão do vinho.

Esta aventura iniciou-se no concreto no ano de 2006 com a produção do meu primeiro vinho a que chamei “Primeira Água”, a partir de uvas compradas na região do Dão. Mas se o primeiro vinho apenas surgiu nessa altura, ele só foi possível, porque vinha crescendo em mim, desde há alguns anos, um chamamento, um apelo pela terra.

O vinho é assim apenas a expressão de um sonho mais amplo - percorrer esse caminho de regresso àquilo que é mais genuíno, mais ancestral na minha própria história - A relação com a terra e com os seus produtos. Um mundo tão duro quanto mágico!
 
 
A plantação da Vinhas das Penicas em 2007, pequena propriedade junto ao Palácio de S. Marcos, na freguesia de S. Martinho de Árvore, no concelho de Coimbra, concretizou pois esse ansiado regresso às origens, às minhas memórias mais primárias. Conjugar o contacto com a terra com a produção de vinhos é neste momento um desafio.

Mas que vinho produzir? Como fazer para agarrar nesta paixão e colocá-la dentro de uma garrafa? E o resultado dessa paixão, como o fazer chegar e dar a conhecer a outras pessoas?

Bem a primeira condição é que seja uma produção necessariamente pequena, de nicho, mas que seja marcante, sem concessões a uma filosofia de vinhos de terroir, que marquem a diferença pela autenticidade. Que sejam vinhos de “sítio”, que representem uma ideia, que tenham carácter único, que se façam ali, naquela vinha e em mais lugar nenhum. Irrepetíveis portanto! E claro, a segunda condição e não menos importante – que tenha qualidade reconhecida.

Cansado, como muitos outros apreciadores, do perfil massificado da maioria dos vinhos actuais, tecnológicos, para beber novos, muitos encorpados e alcoólicos, no estilo “fruit bomb”, necessáriamente pouco frescos e amiúde chatos e pouco gastronómicos, defendo vinhos com uma matriz de identidade assente num carácter marcadamente indígena. De intervenção mínima! No fundo preconizo muito trabalho na vinha, pouco na adega!

Vinhos de produção muito limitada, micro vinificações portanto, elegantes, tânicos, longevos, para consumir apenas depois dos três ou quatro anos de idade. Vinhos com carácter, que transmitam os aromas da terra, pronunciadamente minerais, frescos e moderadamente extraídos e alcoólicos.

Nos últimos anos tenho vindo a prestar especial atenção ao carácter dos vinhos da Bairrada, com especial enfoque para os grandes tintos feitos a partir da casta Baga. São vinhos autênticos e que me têm enchido as medidas e que representam na essência esse apelo à autenticidade.

A aquisição de uma vinha este ano, quase centenária, plantada com a casta Baga, lançar-me-á na procura desse tal vinho! Espero pois, dar aqui neste espaço o testemunho desta aventura, desta procura do vinho da minha vida!

Boa vida, bons vinhos!

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

São bagas, Senhor!

Acta do Tonel 71º


Estabelece esta imponente irmandade, aos vinte e três dias do mês de Março do ano da graça de nosso senhor de 2015, o título de Senhor Baga, atribuindo-o sem demoras ao irmão Beto pela demonstração inequívoca do conhecimento e domínio da casta. Valida esta irmandade a justeza e merecimento de tal distinção, reconhecendo por unanimidade que a mesma peca apenas por tardia. Por ora, e até nova deliberação, tamanha distinção será repartida pelo dito e pelo Sr. Luís Pato, também animal com provas dadas na temática.

Os ensinamentos

Sejamos claros! Nenhuma casta foi tão mal tratada como a Baga. Mais! Ela foi desclassificada sobretudo pelos próprios bairradinos, que não tiverem pejo em maltratar e maldizer aquilo que era seu por herança! Mas ela pôs-se a jeito! Ai pôs, pôs!

É que nenhuma outra casta nos fez sofrer na pele e no palato tamanho sofrimento. Todos nós já bebemos nas adegas da nossa região vinhos Baga,  também chamada por aqui de Poeirinho, tão maus que até as lágrimas nos saltaram dos olhos. Vinhos tão ácidos, delgados e frios que eram capazes de nos deixar sem voz quatro dias. Um único copo era suficiente para nos provocar um resfriado agudo, caso não tomássemos em simultâneo um Brufen ou o bebêssemos de sobretudo vestido e meia grossa calçada. Nalguns casos, era apenas possível bebê-los debaixo das mantas ou mesmo anestesiado! Uma verdadeira tortura!

Em suma, a Baga foi durante décadas tão mal tratada na vinha e na adega que os seus vinhos, sem tempo para amadurecer, foram declarados malditos, associais e indomáveis, e a casta praticamente banida a sua vinificação clássica - 85% a 100% no lote.

Resultado? No ainda vigente culto dos vinhos fáceis, jovens, doces e amadeirados, a Baga perdeu espaço e foram reconvertidos milhares de hectares de vinhas antigas em castas mais macias, quentes e aveludadas. De venda fácil! Foi por isso que a casta caiu nas ruas da amargura, cedendo o seu lugar aos Sirah, Merlot ou Cabernet Sauvignon.

Com tamanho descuido, a região da Bairrada perdeu a sua matriz de identidade, aquilo que verdadeiramente a diferenciava das outras regiões de Portugal e do mundo, alinhou na corrente dos vinhos afrancesados, colocando-se a par de tantos outros milhares de vinhos feitos com o mesmo perfil nas mais variadas latitudes. Como podia a Bairrada, uma região pequena, marcar a diferença no mundo global com vinhos feitos com Merlot ou Sirah? A região estagnou. Naturalmente!

Mas nem todos o produtores cederam às dificuldades e alguns persistiram no seu caminho, na sua crença – Marcar a diferença, pela diferença. Foram compensados! Existe hoje um movimento de reestruturação dos vinhos clássicos bairradinos e a casta e a região gozam de um crescente interesse e reconhecimento, dos consumidores nacionais e sobretudo internacionais, cansados do perfil massificado dos vinhos actuais. A Baga e a Bairrada estão na moda!

Os vinhos Baga

São vinhos muito tânicos, por vezes ligeiros de cor. Apresentam uma longevidade invulgar para um vinho de mesa e em alguns casos tornam-se lendários, irrepetíveis e com carácter absolutamente raro e diferenciado. Os grandes tintos Baga nos primeiros anos de vida mostram sobretudo aromas de vinificação. Dos três aos cinco anos parecem fecha-se um pouco, para a partir dai explodirem em fruta preta e vermelha madura, bagas silvestres maceradas, tabaco, com final de boca fino e especiado, leve vegetal e aromas terrosos muito pronunciados! Têm frequentemente um nariz muitíssimo perfumado e balsâmico, com sugestões de violeta. São vinhos diferenciados e únicos!

A prova

Neste Tonel as expectativas eram altas. Havia de resto um frenesim acrescido relativamente a provas anteriores. Uns acreditavam que poderia ser uma prova marcante, outros torciam o nariz. É que também na nossa irmandade havia adeptos e detractores da casta. Estes últimos ficaram finalmente rendidos.
 
Em causa estava a avaliação de um painel de vinhos muito diversificado, constituído por vinhos de nível médio alto, de colheitas antigas e recentes, separadas por muitos anos, estilos de vinificação e perfis de estágio também muitos diferentes - o vinho mais velho era da colheita de 1991, com 24 anos portanto, e o mais jovem da colheita de 2013. Foi uma viagem emocionante pela história da própria região! Foi como viajar no tempo, percorrer colheitas tão distantes, vinhos maravilhosamente tão únicos.

Refrescada a boca com o espumante Borga da casta Pinot Noir, do produtor Carlos Campolargo e passada a limpo com o espumante de autor Vinhas das Penicas Baga 2013, do produtor Alberto Almeida, fomos gulosos directos aos tintos, que o nervoso miudinho crescia. O chefe Pedro, do restaurante Estação de Sabores, em Miranda do Corvo, tinha-nos preparados uns consistentes entreténs de boca ainda antes do poderoso bacalhau à lagareiro saltar para a mesa, que a prova pedia comida consistente e estômago bem forrado.

Se as expectativas eram altas, bem se pode dizer, ao olhar no final para as sobras de vinho, que elas foram sobejamente superadas. Os decanters ficaram simplesmente vazios. Secos! Todos!

Numa primeira apreciação podemos dizer que os vinhos estiveram num nível muito alto. Sete dos oito vinhos em prova obtiveram classificação final suficiente para ganhar provas anteriores. A diferença ente o vinho mais pontuado e o sétimo classificado foi de apenas 12 pontos. Mais, com a excepção do vinho Baga 2013 da Filipa Pato, o menos pontuado da prova, todos os outros foram eleitos o melhor em prova por pelo menos um dos provadores. Admirável!

E o vinho da colheita de 1991? Bem, numa primeira apreciação não saltava à vista. Nem pela cor, aroma ou no ataque e final de boca. O vinho apresentava uma admirável juventude aos 24 anos de idade. Apenas 7 dos 11 experimentados provadores o identificaram. Surpreendente? Não! Defeito dos provadores? Também não! Mérito do vinho, de uma casta, melhor de uma região que tem tudo para marcar a diferença no mundo.

Classificação final

Outrora 2010, 87 pontos. Colinas S. Lourenço 2011, 86 pontos. Kompassus 2011, 81 pontos. Marquês de Marialva Reserva 2010, 79 pontos. Aliança Baga 2009, 78 pontos. Cinquentenário Adega Cantanhede 2003, 76, pontos. Confirmado 1991, 75 pontos. e prémio vinagre, Filipa Pato, Baga 2013, 65 pontos.

O irmão Beto, de ora em diante Senhor Baga, conforme titulo supra anunciado, fez o pleno na prova, identificando todos os oito vinhos!

Quer esta irmandade prestar aqui a sua homenagem a todos os homens e mulheres que trabalham nas vinha e nas adegas bairradinas, inovando e revolucionando todos os dias, de modo a colocar os seus vinhos no top das preferências dos consumidores mais exigentes. Nunca se poderá deixar de sublinhar, neste conjunto de pessoas, o papel do senhor Luís Pato, o mais emblemático e inovador produtor da bairradino e o responsável maior pela metamorfose dos vinhos da casta baga. Bem-haja!

Por fim, por unanimidade e não menos importante, ficou decidido em nome da defesa da qualidade dos vinhos apresentados a prova, com efeitos imediatos, que o irmão que apresente o vinho menos pontuado na prova, seja premiado com a apresentação de um Porto de categoria superior no Tonel seguinte. O Daniel é pois o feliz contemplado!

Agradeça-se o bom serviço do restaurante Estação de Sabores.

Irmandade dos Tonéis, desde 2000 por vinhos de um cabrão!


domingo, 8 de fevereiro de 2015


 “Declaro por minha honra preservar, promover e divulgar o ritual da irmandade do tonéis, reconhecendo o papel dos tonéis na valorização do vinho e da gastronomia que lhe está associada;

Prometo valorizar os sabores e aromas dos néctares degustados, não mais me comportando como um "envinagrado dum cabrão", nem mesmo como "curioso de tinto". “

O Tonel 69
Poderíamos começar este texto pelo caminho mais fácil! Com uns trocadilhos baratos e estéreis aproveitando a infeliz sequência numérica deste nosso tonél! Escreveríamos aqui umas graçolas de meia tigela sobre umas posições acrobáticas que obedecem a uma determinada simetria ou talvez até poderíamos invocar aqui o Kamasutra, essa bíblia do deleite. Mas o assunto aqui é vinho. E para mais, esta linguagem do sexo seria estranha para a maioria dos membros desta impoluta irmandade. Gente de postura séria e hirta! Para alguns desta ingénua gente, o Kamasutra seria facilmente confundido com o nome de um qualquer novo avançado do Sporting!
Poderíamos até, caso fugíssemos às nossas responsabilidades, e agindo preventivamente, ter saltado directamente do 68º para o 70º Tonél evitando assim conotações abusivas ou o devasso gratuito. Mas não! Jamais no desviaremos um milímetro que seja da nossa missão!
Desta forma importa com lisura e elevação passar ao largo da devassidão, figas canhoto, que até estou a suar, e falar do que verdadeiramente importa – De sexo! Perdão, de vinho!
 
A cerimónia
Ficará este tonel 69, realizado aos vinte e três dias do mês de Janeiro do ano da graça de nosso senhor de 2015, marcado nos anais desta imponente irmandade pela cerimónia de entronização dos novos irmãos Nelson, João Lopes e Victor Cancela, que vêem assim o seu actual e pobre estatuto de “curiosos do vinho e envinagrados dum cabrão” acender ao honroso título de ”Irmãos”.
O excerto do juramento acima transcrito, lido a viva e trémula voz, carimbou em definitiva tamanha pretensão e serve como prova da enorme bondade e condescendência da nossa digníssima congregação. Um marco. Uma responsabilidade. Parabéns!
 
Ataque de boca
E enquanto os oito vinhos do Dão arejavam, região em prova no presente jantar, iniciamos o aquecimento vínico/gastronómico com a prova de três espumantes – Messias branco bruto 2012, Penicas rosé bruto 2013 e Terras do Demo bruto 2011, que embalaram com coragem e brilho o carácter fortemente condimentado das sardinhas e enchovas de conserva e dos queijos de cabra da região de Castelo Branco.
 
O rigor gastronómico do Irmão Nelson e de sua excelência o nosso Grão-Mestre e Chef reputado Fernando Marques, ficou definitivamente vincado com a apresentação das entradas – Umas vieiras gratinadas no forno com ovo, queijo e pão torrado, acompanhadas por dois Vinhos Verdes varietais – o vibrante e consensual Soalheiro Alvarinho 2011 e um controverso Avesso 2005, já com marcadas notas de evolução, de que já nem do nome nos lembramos.
 
O repasto principal foi confeccionado a partir de sete Sargos pescados à linha nas águas de Baiona, nos beiços da co… actchimmmm,  perdão, da costa Galega, pela cana do nosso novo irmão João Lopes. Assados no forno com batatinhas e servidos em cama de espinafres com mel, ganharam o estatuto de iguaria, ombreando de modo franco com os oito elegantes mas poderosos vinhos do Dão, desfazendo assim esse mito urbano – que não se deve acompanhar peixe com vinho tinto. Ai está a prova provada que bons vinhos acompanham bons peixes! Já os maus não acompanham coisa nenhuma!
 
Notas de Prova
Respondendo ao repto lançado no último Tonél, de que o vinho apresentado a prova carece de sumária apresentação, na qual o proponente fundamenta a sua sugestão, os irmãos não se fizeram rogados e apresentaram-se na prova exemplarmente documentados. Era vê-los munidos de pastas de apontamentos e argumentos afinados na ponta da língua, mostrando trabalho de casa bem feito. Se a irmandade fosse financiada pelo Estado, no próximo Tonel alguns levariam assessores!
Em prova, por ordem de classificação, apresentaram-se os seguintes vinhos: Corga Touriga Nacional 2011 e Quinta da Fata Reserva 2011 (1º lugar ex aequo, 75 pontos), Chão da Quinta 2011 (3º lugar, 73 pontos), Quinta dos Carvalhais 2010 (4º lugar, 72 pontos), Quinta da Vegia 2010 (5º lugar, 64 pontos, Fuga - Casa da Passarela 2011 e Ribeiro Santo Reserva 2011 (6º lugar ex aequo, 62 pontos e a distinção vinagre para o aristocrático Quintas de Saes, 2011, Estágio Prolongado (58 pontos). Este último terá sido a desilusão da noite!
 
Fim de boca (dissertações)
A irmandade não prova vinhos só porque sim, fá-lo com um intuito bem claro. Se em primeira instancia o objectivo é avaliar 8 vinhos em cada prova, num momento subsequente pretende esta congregação elaborar pensamento crítico sobre os perfis, caminhos e tendências do Vinho. O crescente fenómeno da adocicação, perfumação e sobretudo de madeirização dos vinhos não nos tem passado ao lado. Neste Tonel, dois vinhos revelaram-se, na nossa opinião, bons representantes dessas tendências, a saber -  O vinho Quinta de Saes (vinagre, 58 pontos) que apresentava carácter fortemente perfumado, escondendo aromas mais vinhosos ou vegetais e o Chão da Quinta (3º lugar, 73 pontos), que revelava sobretudo notas florais, doces e pronunciadas notas de barrica. Na prova, se a irmandade foi severa com o primeiro, já relativamente ao segundo foi bastante contemplativa, atribuindo-lhe o honroso 3º lugar. Afinal, talvez os produtores tenham razão – É de madeira e de notas doces que elas e eles gostam mais!
E por falar em doces, no cair do pano, serviu-se um irrepreensível arroz doce à moda de Coimbra, acompanhado por um poderoso Croft Porto Vintage 2012. Nunca Pior!
Agradeça-se a hospitalidade do irmão Nelson.
 
Irmandade dos Tonéis
Fundada em 2000, por vinhos de um cabrão
 
 
 


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Irmandade do Toneis - Acta do 67º Tonel


                                                                                  
Quis a ironia do destino que o vinho alentejano José de Sousa 2010 tivesse sucumbido (o menos pontuado da prova, com 52 pontos) no preciso dia em que, outro José de Sousa, um tal de José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa tombava também retumbantemente nos calabouços da Policia Judiciária! O tombo do segundo era bem mais esperado que a do primeiro diga-se.
Noutra boa ironia do destino, neste tonel, triunfou o duriense Meandro 2011 (68 pontos), justamente na semana em que a região do Douro caia nas bocas do mundo vinícola depois de ter visto a famosa revista norte americana Wine Spectator colocar 3 vinhos da região nos 4 primeiros lugares do seu top 100. O Dow´s porto vintage de 2011, ocupa o primeiro lugar no ranking anual da revista com 99 pontos e os tintos Quinta do Vale Meão  e Chryseia ocupam os 3º e 4º lugares, acequio,  com 97 pontos. Ambos da já mítica vindima de 2011, que se afirma como umas das grandes colheitas dos últimos 100 anos. Aliás, no momento de comprar bons vinhos portugueses, na dúvida entre colheitas, podemos optar sem grande risco pela de 2011. Seguramente compramos um excelente vinho, independentemente da região de origem.
Mas o que importa aqui igualmente ressaltar são outros meandros - os de uma irmandade constituída no ano de 2000, constituída do 8 irmãos, que se propôs viajar por vinhos complicados, vinhos de um cabrão e que o tem feito, ao contrário de outros, os tais que à hora de trabalho vêm “mulheres avantajadas”, com competência, isenção, paixão e dedicação desinteressada durante 14 anos e 67 tonéis (provas), como manda a cartilha dos amantes do vinho.
Constituída pelos oito irmãos na foto acima publicada, foi no presente tonel tomada a tardia decisão de alargar a sua composição aos irmãos Nelsinho, João Lopes e Victor Cancela que veem o seu actual estatuto de curiosos do vinho, passar no próximo tonel a irmãos de pleno direito. Claro está que a cerimónia de entronização carece de rituais próprios e devidamente previstos e fundamentados em cartilha suprema, salientando-se, neste caso o imperativo do acto carecer, para atestar da sua legalidade, da abertura de um qualquer Porto um vintage de 2011 promovido pelos três ditos em agradecida comunhão. A ocasião obriga a tal esforço! Ao nosso, perceba-se, que isto de beber um bom vintage em fecho de refeição tem o seu quê de doloroso! Mais para os três claro!
A irmandade Perdeu fulgor? Perdeu! Vai acabar? Nada disso! Aos amantes do vinho não basta produzir lugares comuns ou frases feitas sobre o dito. Cumpre-nos a nós evitar que tão ilustre congregação resvale para tal enfermidade. O Vinho na vida de uma amante ganha dimensão poética, carece de uma lógica emocional interpretativa. De um fundamento. De um propósito. Não basta que o vinho apresentado seja bom, condição de resto obrigatória. O vinho apresentado por um amante do vinho deve ter uma história e contar estórias, representar um enamoramento, uma paixão. Deve comunicar algo! E tanto quanto possível essas estórias devem entrelaçar-se com as vivências do seu proponente. Claro fica que jamais de deve comprar um vinho à pressa, sem preparação prévia ou a caminho de uma prova, a não ser que se trate claro está, neste caso, de um qualquer Barca Velha por ai abandonado na prateleira um qualquer estabelecimento. Igualmente se exige presença assídua, não contando impedimento menor como fundamento válido para uma falta! Para além da morte do próprio, contar-se-ão com os dedos de uma só mão outros argumentos válidos. O que jamais poderá acontecer é que a morte do próprio não nos seja comunicada ou que o dito vá morrendo aos poucos sem aviso. Mas vamos ao vinho!
Neste tonel estavam em prova, como sempre, oito vinhos. Para além dos dois vinhos já mencionados, foram a degustação os bairradinos Avô Fausto 2010 da Quinta da Bageiras (4º lugar, 59 pontos) e Casa de Saima grande reserva 2011 (6º lugar, 58 pontos). Da planície alentejana, para além do já referido José de Sousa, estavam o Fita Preta 2012 (5º lugar, 59 pontos), o Herdade do Peso 2011 (3º lugar, 61 pontos) e o vinho Azamor 2010 (7º lugar, 54 pontos). Da região duriense, o já referido vencedor e ainda o vinho Poeira Dusty (2º lugar, 65 pontos).
Em dia de jackpot, o irmão Luís identificou os todos os vinhos em prova, método de semicega, igualando o feito único, até à data, do Irmão Meno, entretanto por terras de Vera Cruz. Sorte? Claro. Mas não só! Em prova estavam 3 regiões bem diferentes, a Bairrada com a garra dos taninos, as vezes indomáveis, dos seus baga, a planície com os seus vinhos de fruta bem madura, quase compotados, mas por vezes poucos frescos e o Douro com a sua pujança e incrível equilíbrio. Naturalmente estavam perfis bem diferentes em prova e a partir deste pressuposto seria teoricamente mais fácil identifica-los, quanto mais não fosse por região. Digo eu!
E se alguém lhe oferecesse flores… isso provavelmente será Touriga Nacional
Num pequeno inquérito realizado na irmandade foi pedido a cada um dos seus irmãos que, partindo do seu saber, das suas paixões, da sua experiencia vínica e do perfil de vinhos que procuram, respondessem à seguinte questão – Que duas castas plantariam numa vinha própria? Oito dos nove irmãos presentes escolheriam a casta portuguesa Touriga Nacional como primeira opção de plantação. Na segunda opção, a maioria dos irmãos associariam à primeira escolha a casta Baga. As restantes escolhas ficaram a grande distância e dispersaram-se, por entre alguns disparates, por várias castas.
Esta conjugação de castas em termos de região coincide tradicionalmente com a encontrada na região do Dão e sobretudo na Bairrada em terrenos respectivamente de origem granítica e argilo-calcários, capazes de emprestar grande frescura e mineralidade aos seus vinhos. Seriam vinhos, se bem feitos, encorpados, estruturados e longevos que associariam os taninos poderosos e por vezes indomáveis da Baga com os taninos firmes e elegantes da Touriga Nacional. No nariz, apresentariam as notas florais exuberantes da Touriga Nacional e os aromas a frutos silvestres e bagas vermelhas da baga, que evoluiriam para notas aromáticas mais complexas de ameixa preta, tabaco e café, com o tempo, se vinificados, claro fica, na Adega das Penicas. Seriam vinhos de guarda seguramente!
As hostilidades abriram, ainda antes do jantar, com a prova dos espumantes Vinha das Penicas rosé 2013 e Vinha das Penicas 100% Baga 2013 que acompanharam, bem, as diversas entradas preparadas pelo chefe António Neves. Seguiu-se uma original sopa de ortigas, bacalhau confitado com migas e um soberbo leite-creme queimado na hora, que fez companhia a um moscatel de Setúbal da José Maria da Fonseca e a um vinho do Porto 10 anos.
Agradeça-se ainda a hospitalidade do casal António e Susana.
E porque a vida é por vezes bem amarga, bebamos então bons vinhos e cuidemo-nos enquanto é tempo!
(P.S: Este texto não é ficção, ele reproduz fielmente, tanto quanto o vinho permitiu, os momentos e as ideias expressas pelos irmãos durante a degustação e respectiva Prova.)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os afinadores de pessoas



Ela tentara o suicídio vinte e quatro horas antes. O acto pareceu mais apelativo que verdadeira intenção de morte, mas nunca se sabe. Na sessão seguinte, apresentava um ar arrebitado, vivaço, pouco consistente com quem quisera morrer na véspera. Mulher de estatura alta, autoritária, dinâmica, inteligente, perspicaz, humor corrosivo, visão irónica, de grande exigência sobre ela própria e sobretudo sobre os que a rodeiam! No Átomo Social (técnica de apresentação psicodramática) foi-lhe pedido que colocasse no palco (instrumento psicodramático) as pessoas mais significativas – o pai, teimoso e autocrático, a mãe, submissa e deprimida, o irmão, menino da mamã, superprotegido e acomodado e finalmente o marido, influenciável e indeciso! Apresentava portanto, reservas sobre todos, ainda que se lhes declarasse um amor inequívoco! Mesmo relativamente ao marido de quem se tinha separado após apenas seis meses de casamento e dez anos de namoro. Apesar deste amor sem fim tinha, sobre todos, qualquer coisa a apontar, uma espécie de espinha atravessada na garganta, que impedia a sua satisfação plena! Era uma mulher sobressaltada e, nas sua próprias palavras, infeliz!
Quando o director do grupo lhe pediu que trocasse de papel com cada uma das pessoas significativas que colocou no palco, revelou uma inesperada dificuldade. No lugar dos outros, o discurso outrora escorrido e fácil, perdeu fluidez, espontaneidade e sucumbiu a silêncios incómodos. Não sabia colocar-se no lugar dos outros. Nunca o tinha feito! Estava amarrada aos seus próprios papeis, à sua visão do mundo! Apresentava um enquadramento  inquinado sobre a realidade circundante, feito quase exclusivamente a partir da sua própria “janela”. Encerrada em si, nesta posição, jamais poderia compreende-los.
Quando o director lhe pediu para mudar o que desejasse na cena, percorreu-os um a um e deu-lhes uma pequena afinação, mais simpatia neste, menos submissão naquele, mais atitude no aqueloutro. Afinou-os como se eles tivessem um pequeno parafuso de regulação atrás da orelha, que ela sabiamente, munida de uma pequena chave de fendas imaginária, ajustava ora mais para a direita, ora mais para a esquerda, até os colocar no ponto! Sobre ela própria nenhuma palavra, nenhuma mudança! Neste sentido, ela em pleno sofrimento, advogava uma solução mágica – ajustar o mundo a si em vez de se adaptar a ele. Um equívoco portanto!
Somos todos, uns mais que outros, um pouco assim – instalados no nosso castelo, no nosso cadeirão panorâmico, centrados no nosso umbigo, esperamos que as relações com os outros e com o mundo sejam uma espécie de fato feito à nossa medida! E perante a diferença, estremecemos, sentimo-la frequentemente como uma ameaça à nossa construção e à nossa organização interna. Temos imenso medo do que é diferente, do que é desconhecido. E como a melhor defesa é o ataque, fazemos o contraditório, o ataque ao outro, partindo muitas vezes de uma visão enviesada e  inquinada. Este ataque ganha contornos e amplitude mais ou menos intensos, consoante o nível do conflito e o perfil da personalidade de cada um, seja na forma psicológica ou, no limite, podendo chegar à eliminação física do outro.
Estamos muito pouco dispostos a mudar, a ceder ou a conceder. Estes fenómenos revelam-se nas famílias, nos grupos sociais, nas organizações, na política, na economia de mercado ou em qualquer outra área da esfera das relações humanas.
Sob o argumento da diferença são retirados todos os dias direitos fundamentais a pessoas, a grupos ou agregações de toda a natureza, reduzindo-lhes ou aniquilando-lhes o direito de escolher, de ser livres, de expressar a sua opinião, de expressar a sua religião, as suas opções sexuais ou a liberdade de exibirem a cor da sua pele, oprimindo-os, negando-lhes a qualidade de se constituírem com outro diferente! Reduzindo-os à imagem e semelhança do dominador.
A diferença de opinião torna-se argumento que legítima o ataque, legítima o exercício da prepotência, da discriminação, da dominação e da exploração! A diferença merece, neste contexto, o estatuto de inferioridade.
Este ano morreram já mais de trinta e cinco mulheres vítimas de violência doméstica ou crimes de natureza passional. Morreram também 10 homens. Ironicamente,  sete deles
suicidaram-se após terem executado as (ex) companheiras.
Para muitos, o lema continua a ser “mais vale quebrar que dobrar!”
 


quinta-feira, 15 de maio de 2014

AS ABELHAS ESTÃO A MORRER

As abelhas estão a morrer! Estima-se que entre 50% a 90% da população total das abelhas, dependendo das regiões do mundo, tenha já desaparecido. As causas deste desastre ainda não foram estabelecidas.

Esta epidemia, de amplitude e violência colossais, está a alastrar de colmeia em colmeia por todo o planeta. Milhares de milhões de abelhas deixam as suas colmeias para nunca mais voltar. Nenhum cadáver de abelha é encontrado nos terrenos circundantes. Em poucos anos, as abelhas têm vindo literalmente a desaparecer.

Nos EUA, estima-se que tenha já desaparecido1,5 milhões de colmeias (de um total de 2,4 milhões). Os americanos importam agora abelhas da Austrália para fazer a polinização dos gigantescos campos de amendoeiras da Califórnia. Este cenário é mais ou menos semelhante em todo o mundo. Esta síndrome foi baptizada como “fenómeno Mary Celeste”, a partir do nome do navio cuja tripulação desapareceu misteriosamente em 1872 sem deixar rasto.

Cerca de 80% das espécies de plantas precisam das abelhas para serem polinizadas. Sem elas, não há polinização, logo, não há frutos. Três quartos das culturas que alimentam a humanidade dependem delas.

Esta desordem das abelhas parece não ficar a dever-se a um factor em concreto, mas a todo um conjunto de factores nascidos com industrialização como os pesticidas, o stress e a multiplicação à escala mundial das ondas electromagnéticas que perturbam e destroem as suas defesas imunitárias.

Tal como os trabalhadores, as abelhas estão a ser vítimas do sistema capitalista e da economia de mercado neoliberal! Os mercados pressionam os apicultores e estes pressionam as suas abelhas a aumentar ainda mais o seu desempenho com menos condições. As abelhas tornaram-se trabalhadores escravizados e sobretudo, através dos cruzamentos genéticos, foram modificadas tornando-as mais produtivas e mais dóceis. Muitas já não picam sequer! São apenas uma máquina de fazer dinheiro a quem basta apertar um botão para pôr a funcionar sem qualquer tipo de reclamação.

O resultado está à vista. Na china milhares de trabalhadores fazem já a polinização manualmente das árvores de fruto elevados em escadotes, munidos com pequenos cotonetes e sacos de pólen comprado aos mercados ewspecializados, substituindo assim o pequeno insecto.

A Apis Melífera (abelha europeia) surgiu na terra 60 milhões de anos antes do homem e deve ter-se já arrependido de tal encontro! A verdade é que nunca precisaram do Homem para sobreviver e acabam agora por sucumbir à sua ganância. As abelhas melíferas parecem simplesmente ter desistido, lançaram a toalha ao tapete! Mandaram-nos passear!

 Mas, ironia do destino, aconteceu o impensável! A partir de um cruzamento realizado há uns anos num laboratório brasileiro entre abelhas africanas, conhecidas por abelhas assassinas, com a espécie Apis Melífera Europeia, conseguisse uma nova espécie, a que se chamou Abelha Africanizada. Vinte e nove enxames desta nova espécie fugiram e multiplicaram-se um ritmo elevado, espalhando-se por todo o mundo, inclusive na Europa!

Pois bem esta nova e futuramente dominante espécie é absolutamente intratável e tem agitado os mercados! O alarmismo tem sua razão de ser, já que a agressividade apresentada reduz drasticamente as capacidades humanas nas tarefas de manejo, da sua domesticação. Esta nova espécie está a pôr em causa um negócio de milhares de milhões. Os mercados estão em pânico!

Este é um dramático e simultaneamente belo exemplo da adaptação e da revolta das espécies à tentativa cega e gananciosa de domínio por parte do homem. O homem pode ter a ilusão do poder, de ter a faca e o queijo na mão, mas a natureza encarrega-se amiúde de o contrariar de forma clara e inequívoca. Repare-se na violência dos fenómenos atmosféricos e outros em que a mãe natureza lembra quem de facto manda nesta merda!

Mas o mais extraordinário fenómeno da natureza está para chegar. E chegará no dia em que, à semelhança das abelhas, homens escravizados por outros homens sem escrúpulos se cruzarem com uma outra espécie mais feroz e mais avessa a sistemas de dominação,  darão origem a uma nova espécie!

Nesse dia, este novo homem, nascido deste novo cruzamento, chamar-se-á africanizado, asiatizado, cruzado com ET´s ou outra merda qualquer, irá lançar o maior ajuste de contas da história da humanidade! A revolta do homem escravizado focar-se-á nos sistemas dominantes, nas economias de mercado neoliberais, nos mercados, na injusta distribuição dos recursos do planeta.

Este novo homem não usará smartfones, iphones, ipads ou outras tecnologias de ponta. Este novo homem não usará armas de guerra. Este novo homem não cederá a lóbis, ao poder do dinheiro ou outro qualquer poder. Este novo homem, geneticamente mais dotado, de falo em riste, fará justiça com as próprias mãos, de forma nua e crua!

Este novo homem já tarda!

“Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida", Albert Camus